O linchamento de Mariana Mortágua é o espelho da intolerância

 

O ódio a Mariana Mortágua não é uma questão política normal, fruto da divergência entre partidos ou de discordâncias ideológicas próprias de uma democracia saudável. O que se assiste, diariamente, é um ódio primário, bruto, descontrolado, que extravasa os limites do aceitável e do razoável. É um ódio que se entranha, que se repete em comentários nas redes sociais, em conversas de café, em programas de opinião. É um ódio que não debate: insulta. Que não discorda: difama.

Este ódio é tão avassalador que até parece que Mariana Mortágua seria uma criminosa, alguém que anda a espalhar medo e violência, quando o que faz é política. Política com convicção, com firmeza e com a coragem de quem não se verga à chantagem do poder económico nem às pressões da direita mais reacionária. Mas para muitos, isso é imperdoável.

O caso de Mortágua revela-nos o lado mais sombrio da sociedade portuguesa: uma faixa da população que vive intoxicada de preconceito, intolerância e ressentimento. Gente que não suporta a diferença, seja ela política, ideológica, de género ou de identidade. Mariana Mortágua concentra tudo aquilo que essas hordas de ódio não toleram: é mulher, é lésbica, é de esquerda, é crítica feroz das desigualdades, é incómoda para os poderes instalados. É o alvo perfeito para quem precisa de descarregar o seu fel.

E porque não têm argumentos, recorrem ao insulto. Porque não têm substância, recorrem à calúnia. Porque não conseguem desmontar as suas ideias, tentam destruir a sua imagem pública. Esta estratégia é tão velha quanto o fascismo: quando não se consegue debater, elimina-se o adversário pela violência simbólica.

Um exemplo paradigmático dessa podridão foi a criação de uma petição online a pedir que o Estado de Israel mantivesse Mariana Mortágua presa, só porque participou numa missão humanitária de solidariedade com o povo palestiniano. É preciso dizer as coisas sem medo: isto não é crítica política, é ódio fascista, puro e duro. É a intolerância a mascarar-se de opinião.

Esse ódio não surgiu do nada. Foi alimentado, passo a passo, por anos de discurso reacionário, por uma extrema-direita que encontrou na internet o seu espaço natural de reprodução, e por uma comunicação social que muitas vezes prefere o escândalo à análise séria. O resultado é o que vemos hoje: um clima onde a política é substituída pelo insulto e onde figuras como Mariana Mortágua são transformadas em inimigos públicos a abater.

Mas convém deixar claro: este ódio primário não é apenas contra Mortágua. É contra tudo o que ela simboliza — a possibilidade de uma sociedade diferente, mais justa, mais igualitária, mais solidária. O ódio a Mariana Mortágua é, no fundo, o ódio à democracia plena, aquela que não se contenta com o status quo e que ousa propor mudança.

Não nos enganemos: cada insulto dirigido a Mariana Mortágua é um aviso a todos os que ousam pensar diferente. É o sistema a tentar dizer-nos que quem sair da linha será esmagado. E é por isso que a defesa de Mariana Mortágua é, acima de tudo, a defesa da democracia e do direito a discordar sem ser alvo de linchamento público.


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