O Eclipse da Humanidade: O Genocídio em Gaza e o Presságio da Nossa Própria Queda
Vivemos, reconhecidamente, o período mais sombrio desde a
Segunda Guerra Mundial. É um "obscurantismo" ético e moral,
impulsionado pela degradação das elites dirigentes e de uma parte significativa
das massas. Assistimos à ascensão de uma sociedade cada vez mais individualista
e egoísta, onde a empatia se tornou um bem em vias de extinção. Isto em grande
parte devido a décadas de neoliberalismo. A erosão moral atingiu tal nível que
as redes sociais se transformaram num palco de horrores onde a desgraça alheia
é recebida com uma normalização indiferente ou, pior, com o escárnio dos que se
sentem protegidos por uma falsa distância. Esta falência moral representa o
colapso dos valores humanistas e da própria doutrina social que, durante
décadas, serviu de bússola à nossa civilização.
Poderia analisar esta decadência sob múltiplos prismas, mas
foco-me no exemplo mais paradigmático desta tragédia contemporânea: a ocupação,
a colonização e o genocídio em curso na Palestina.
O massacre em Gaza atingiu proporções de tal ordem que nem a
mais poderosa máquina de propaganda sionista conseguiu ocultar a barbárie.
Apesar da cumplicidade vergonhosa dos media mainstream, do silêncio
ensurdecedor de comentadores e da subserviência dos governos ocidentais, o povo
palestiniano conseguiu, por sua conta e risco, furar o bloqueio informativo. A
realidade crua despertou aqueles que ainda defendem a dignidade humana,
forçando as lideranças hipócritas a encenar reações. No entanto, o "plano
de paz" surgido de Washington não passou de um embuste, uma ferramenta
retórica para lavar consciências e silenciar os protestos nas ruas. Toda esta
encenação causa-me náuseas; não confiaria a estas lideranças nem a gestão de
uma maçã podre.
Como português e europeu, sinto-me ultrajado pela postura
das nossas instituições. Repugna-me a cumplicidade daqueles que, em Lisboa ou
Bruxelas, branqueiam crimes de guerra e apertam a mão a Benjamin Netanyahu — um
infame criminoso. Causa-me asco a estratégia deliberada de rotular como
"antissemita" qualquer voz que critique o sionismo. Esta
"dualidade de critérios" é um insulto à inteligência: bradam-se
valores democráticos para sancionar certas nações, enquanto se justificam ou
silenciam os crimes de Israel. É uma hipocrisia que até uma criança deteta.
O regime sionista persiste na sua barbárie, utilizando
pretensos acordos como cortinas de fumo para continuar o extermínio. Em Gaza, a
morte é agora administrada a conta-gotas através de um sadismo logístico: a
fome é usada como arma através de boicotes sistemáticos; a entrada de
medicamentos essenciais é bloqueada; e até tendas climatizadas são impedidas de
entrar, condenando os sobreviventes a definharem sob as intempéries em
condições inenarráveis. Israel está a aniquilar o que resta do povo
palestiniano perante o silêncio ignóbil do mundo.
Ao mesmo tempo, na Cisjordânia, o projeto colonialista
avança sem freio. Colonos fanáticos, protegidos pelo exército, cometem
atrocidades diárias: confiscam terras, arrancam oliveiras centenárias e
incendeiam aldeias. Não são atos isolados; é uma política de Estado para
fragmentar o território e impossibilitar qualquer futuro para a Palestina. A
impunidade é absoluta.
Contudo, o que mais assusta nesta indiferença quase geral
das elites e das massas não é apenas o que acontece em Gaza, mas o que isso
revela sobre o nosso próprio futuro. Esta passividade perante a barbárie é o
sinal definitivo da falência moral e ética das sociedades contemporâneas. É um
aviso severo e aterrador: quando normalizamos o genocídio e permitimos que o
direito internacional seja reduzido a cinzas em prol da conveniência
geopolítica, estamos a destruir as barreiras que nos protegem a todos.
Se hoje aceitamos que um povo seja exterminado perante o
nosso olhar em direto, nada nem ninguém travará o momento em que esse mesmo
descarte humano nos afetará diretamente. A indiferença que hoje dedicamos à
Palestina é o prefácio da nossa própria vulnerabilidade. No dia em que a
barbárie bater à nossa porta, não haverá autoridade moral nem ética para a
deter, pois fomos nós, com o nosso silêncio e cumplicidade, que lhe entregámos
as chaves do mundo.
Esta é a era da náusea. E o cheiro da decomposição moral das
nossas elites é o presságio de uma catástrofe que não conhecerá fronteiras.

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