MEDO


Na sociedade contemporânea da globalização neoliberal, das novas tecnologias, das grandes oligarquias nacionais e transnacionais, das agências de rating e dos sacrossantos mercados, impera o medo. Medo de perder o emprego, medo de perder a casa, medo do vizinho, medo do ucraniano, medo do cigano, medo do assaltante, medo do fisco, medo, acima de tudo, de ficar sem dinheiro. O medo tornou-se o novo paradigma opressor das sociedades hipercompetitivas actuais, pois inibe o indivíduo e paralisa o colectivo.

Nesta era tecnológica e globalizada, onde parece que ninguém controla ninguém, as empresas deslocam-se em busca de mão-de-obra mais barata, tal como os capitais fogem para onde possam escapar ao escrutínio fiscal. A tecnologia, que permite produzir mais em menos tempo, em vez de libertar o trabalhador da servidão, torna-o ainda mais servil, pois este deixou de ser imprescindível para a reprodução do capital. Como consequência, nove em cada dez novos empregos são precários e mal pagos, pois a insegurança laboral pressiona os salários para baixo. Esta precariedade acabará, inevitavelmente, por afectar toda a força de trabalho, que verá, impassível e paralisada pelo medo, as suas conquistas laborais do último século evaporarem-se como vapor.

Na sociedade tecnológica contemporânea, as máquinas substituíram o trabalho braçal e pesado, reduzindo a necessidade de mão-de-obra. No entanto, em vez deste progresso tecnológico se traduzir em melhores condições para o trabalhador e menos horas de trabalho, ocorre precisamente o contrário: em nome da competição absurda e criminosa de uma sociedade hiperconsumista e de recursos escassos, os horários laborais reais aumentam em toda a parte. O medo de perder o emprego e a angústia de não encontrar outro não são alheios a este absurdo irracional. Aliás, o medo e a cobiça são o motor deste capitalismo selvagem, estúpido e irracional, que nos está a conduzir para um beco sem saída.

"Os direitos laborais, legalmente consagrados com valor universal, foram, em outros tempos, fruto de outros medos: o medo das greves operárias e o medo das ameaças da revolução social, que parecia estar à espreita. Mas aquele poder assustado, o poder de ontem, é o mesmo que hoje assusta para ser obedecido. E assim se desfazem, num instante, as conquistas operárias que custaram dois séculos" (1).

Mas há outros medos, para além dos directamente relacionados com o trabalho e a economia, que são incutidos pelos poderes dominantes nas sociedades actuais. Estes medos estão a provocar a eutanásia da cidadania e a conduzir-nos a um novo paradigma social onde o totalitarismo se torna regra, em nome da nossa própria segurança e com a nossa concordância.

As forças de segurança, que teoricamente existem para proteger os cidadãos e garantir a ordem pública, estão cada vez mais a ser instrumentalizadas para a defesa dos interesses dos poderes instalados e contra aqueles que lhes fazem frente, mesmo que essa oposição ocorra dentro do quadro dos direitos, liberdades e garantias consagrados em qualquer democracia. As intervenções policiais nas manifestações populares em Lisboa contra as políticas vigentes, onde houve infiltrações e provocações por parte de agentes policiais à paisana, talvez com o objectivo de criar tumultos artificiais para justificar a repressão policial em nome da suposta segurança pública, são um exemplo que poderá tornar-se cada vez mais frequente. É necessário inventar um inimigo perigoso para instaurar o medo e, assim, justificar a erosão das nossas liberdades em nome da segurança. Não tenhamos dúvidas: se não existir uma ameaça real, os poderes instalados poderão sentir-se tentados a fabricar uma ameaça imaginária para justificar medidas abusivas que coloquem em causa os nossos direitos de cidadania.

É preciso criar a percepção de que vivemos sob uma constante ameaça, instalando um clima de medo e manipulando esse medo para retirar aos cidadãos direitos e garantias, sem que estes resistam. O infame Patriot Act, imposto por George W. Bush nos EUA após os atentados de 11 de Setembro, é um perigoso e real exemplo disso. Ainda nos EUA, o presidente Barack Obama promulgou a Lei de Autorização da Defesa Nacional, que, sob o pretexto do combate à pirataria digital e outros argumentos superficiais, representa uma grande ameaça à liberdade global da internet. 

Não nos deixemos enganar pelo canto da sereia, ou seja, pelas artimanhas dos poderes instalados que, em nome da nossa segurança física ou económica, pretendem colocar em causa as nossas liberdades, direitos e garantias, arduamente conquistados ao longo da história. Trocar liberdade por uma ilusória segurança, tal como afirmou Benjamin Franklin, é uma atitude própria de quem não merece nem uma coisa nem outra.

 

(1) Eduardo Galeano in De Pernas Para o Ar – A Escola do Mundo ao Avesso.


José Vaz e Silva


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