O lamentável tratamento noticioso desta infame guerra

 



A pandemia já não existe, a vacinação já não tem qualquer importância, a seca desapareceu, a inflação é ignorada, a crise energética já não é relevante. Na verdade, nada mais parece existir além da guerra que trouxe tragédia ao povo ucraniano, ocupando duas horas ou mais dos telejornais das televisões generalistas portuguesas.

No entanto, ao contrário do que seria desejável, a duração excessiva dos telejornais não se traduz em mais ou melhor informação. Pouco ficamos a saber sobre os motivos que desencadearam esta maldita guerra e, pior ainda, sobre o seu desenrolar. Hoje, sabemos pouco mais do que já sabíamos ontem. Além do tema monotemático que domina os noticiários, que pouco acrescenta ao nosso conhecimento, o pensamento monolítico e de sentido único é uma regra inquebrável. Para os telejornais e seus comentadores, a geopolítica e geoestratégia imperial e criminosa são práticas exclusivas do regime despótico de Putin. A superioridade moral do Ocidente (ou melhor, dos EUA) é apresentada como absolutamente incontestável, numa visão única e sem nuances.

Os telejornais não dão voz a quem tem uma visão diferente ou crítica da geopolítica ocidental. Os comentadores e analistas omitem deliberadamente as responsabilidades do Ocidente na situação atual. Todos aplaudem as sanções draconianas que estão a ser impostas, não a Putin, mas ao povo russo, na esperança de que este, em desespero, derrube o ditador. Mas, se isso acontecer, quem o irá substituir e em que condições? E se as sanções levarem a Rússia ao caos político e social? Uma superpotência nuclear em caos é um cenário que deveria preocupar a todos.

Além disso, as sanções ao povo russo, que tanto entusiasmam o mainstream mediático, não só penalizam fortemente os russos, mas também nos afetam a nós, europeus. No entanto, há um claro vencedor nesta equação: os EUA.

Putin e os seus apoiantes são, de facto, abjetos, mas também o são muitos daqueles que se sentam nas cimeiras da NATO e que fazem guerras em nome da democracia e de uma autoelegida superioridade moral. Nenhum dos impérios em disputa por áreas de influência é puro, ao contrário do que os telejornais e seus comentadores nos querem fazer crer.

Vivemos tempos extremamente conturbados e incertos, e não apenas por causa desta guerra. Estes tempos exigem informação credível, com dados relevantes e visões diversificadas, para que possamos formar opiniões baseadas no conhecimento mais abrangente possível. Caso contrário, seremos vítimas do pensamento dominante, de sentido único, e as nossas opiniões serão meros reflexos desse mesmo pensamento. Infelizmente, os telejornais (e não só, pois o panorama nos restantes media dominantes também não é muito melhor) não cumprem os mínimos exigidos de rigor, relevância e diversidade informativa. Pelo contrário, oferecem-nos banalidades atrás de banalidades, com pouco rigor e pouca diversidade, sempre num sentido único, o que é extremamente preocupante.

Não sei o que poderá ser feito agora para acabar com esta guerra, nem consigo imaginar as suas consequências imediatas e futuras, não só para os diretamente envolvidos, mas para todos nós. No entanto, sei o que não foi feito e que poderia e deveria ter sido feito para a evitar: a falta de empenho ou competência dos líderes europeus (com a possível exceção de Macron) nas negociações com Putin, ou melhor, na ausência delas. E, sobretudo, a forma servil e pró-americana como os líderes europeus atuaram mais uma vez.

De facto, as maiores vítimas dos jogos políticos geoestratégicos imperialistas que resultaram nesta guerra são, em primeiro lugar, os ucranianos. Depois, a maioria do povo russo, que se vê ostracizado pelo mundo e também é vítima do regime de Putin. E, finalmente, todos nós, que não estamos na redoma dos privilégios das elites, seremos vítimas e sofreremos as consequências desta guerra, cujo desfecho ainda desconhecemos. Seremos vítimas diretas e indiretas desta guerra, num contexto de geopolítica transnacional onde não há inocentes.

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