Contra o medo, a guerra e o autoritarismo: é tempo de disputar o futuro


 

Num continente onde cada vez mais cidadãos europeus lutam para pagar a renda, alimentar os filhos e preservar alguma dignidade num sistema cada vez mais hostil, os dirigentes políticos avançam, sem hesitação, numa deriva perigosa: a militarização acelerada das economias, o aumento desmedido dos orçamentos de defesa e a imposição de uma nova lógica do medo como forma de governo.

A Europa está a ser arrastada, sem debate sério nem estratégia transparente, para uma escalada belicista que serve os interesses da indústria armamentista e das potências instaladas, mas que nada oferece em termos de paz, segurança ou bem-estar para as populações. Sob o pretexto de ameaças externas — muitas vezes ampliadas ou descontextualizadas — alimenta-se o medo coletivo. E quando o povo tem medo, protesta menos, questiona menos, aceita mais.

Neste cenário de frustração e desespero, a extrema-direita avança. Não com soluções reais para os problemas do povo, mas com uma narrativa enganadora. Em vez de apontar o dedo aos verdadeiros responsáveis — os que especulam com a habitação, precarizam o trabalho e privatizam o que é público — desvia a indignação popular para os mais vulneráveis: imigrantes, pobres, minorias. Culpam os que não têm teto pela falta de casas, em vez de confrontar os que as transformaram num negócio lucrativo.

É uma cruel ironia que muitos dos que apoiam a extrema-direita sejam precisamente os que mais sofrem com este sistema. Trabalhadores explorados, jovens sem perspetiva de adquirir habitação, reformados com pensões indignas — são levados a acreditar que o inimigo é um refugiado ou uma pessoa LGBTQ+, e não aqueles que lucram com a crise habitacional, a estagnação salarial e o desmantelamento do Estado Social.

Enquanto os direitos sociais são corroídos, enquanto a habitação se torna um privilégio e os salários não acompanham o custo de vida, os líderes europeus optam por desviar fundos públicos para uma nova corrida ao armamento. Tudo isto em nome da “segurança” — uma segurança imposta de cima para baixo, sem consulta, sem alternativas, sem verdadeiro debate democrático.

Neste contexto, a extrema-direita ganha terreno. Alimenta-se do descontentamento das massas, mas nunca desafia as verdadeiras causas dessa frustração. Pelo contrário, protege o sistema: ataca os pobres, os imigrantes, as minorias, mas nunca os bancos, os especuladores, os senhores da guerra ou os donos do poder. É a muleta emocional de um capitalismo em crise, que precisa de inimigos imaginários para esconder os verdadeiros culpados.

Tudo isto é reforçado por uma máquina mediática que já não informa, mas molda perceções. Os grandes meios de comunicação, cada vez mais concentrados nas mãos de grupos económicos e interesses políticos, abdicaram do seu papel de vigilância democrática para se tornarem amplificadores da propaganda do sistema. O discurso dominante é repetido até à exaustão: há inimigos lá fora, desordem cá dentro, e apenas um Estado forte, armado e autoritário nos pode “proteger”. Assim, vai-se normalizando a vigilância, a repressão e o retrocesso democrático — sempre em nome de uma “estabilidade” que só serve os de cima.

Mas essa estabilidade é uma farsa. É uma paz podre, construída sobre a desigualdade, a exclusão e o medo. Uma falsa segurança comprada ao preço da liberdade, da dignidade e da solidariedade. A adesão crescente à extrema-direita é, na prática, uma arma apontada ao próprio povo — aos trabalhadores, às mulheres, aos jovens, aos precários, às comunidades racializadas.

Em Portugal, este padrão repete-se. Com eleições legislativas marcadas para o próximo mês de maio, todos os partidos com representação parlamentar — à exceção do PCP e do BE — estão alinhados com a narrativa imposta pela elite burocrática europeia, defendendo um aumento brutal da despesa militar. Fazem-no sem apresentar qualquer estratégia clara, sem explicar os objetivos reais dessa militarização e, sobretudo, sem dizer de onde virá o financiamento. Num país com carências estruturais na saúde, na habitação, na educação e nos serviços públicos em geral, os mesmos que exigem “rigor orçamental” quando se tratam de garantir direitos sociais, mostram-se subitamente generosos quando o destino é alimentar a máquina da guerra.

É urgente romper com este ciclo. É urgente recuperar a consciência crítica, a memória histórica e a capacidade de dizer não à guerra, ao autoritarismo, à propaganda. A verdadeira segurança não vem das armas, mas da garantia de direitos sociais. A verdadeira paz não se constrói com tanques, mas com justiça. E o verdadeiro patriotismo não é odiar o outro, é lutar para que todos, sem exceção, possam viver com dignidade.

Não podemos permitir que o medo seja usado para legitimar a violência vinda de cima. Não podemos aceitar que nos dividam enquanto os privilegiados continuam a acumular poder. E não podemos calar enquanto a extrema-direita se normaliza e a democracia se esvazia.

Porque o futuro só será nosso se tivermos coragem de o disputar.

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