Quando um Papa incomoda, o mundo responde com silêncio – até que morre...
Morreu o Papa Francisco. E, subitamente, multiplicam-se os elogios, os discursos emocionados, as homenagens sentidas. Líderes políticos que nunca o escutaram realmente fazem questão de enaltecer a sua figura. Meios de comunicação que sempre o trataram com desconfiança, quando não com sarcasmo, apresentam-no agora como um “Papa próximo do povo”, “revolucionário”, “humano”.
A hipocrisia é, talvez, um dos traços mais constantes das elites políticas e mediáticas do nosso tempo. Francisco não foi um Papa cómodo. Pelo contrário, foi uma pedra no sapato das narrativas dominantes. Denunciou com firmeza a financeirização da economia, criticou duramente o sistema neoliberal, alertou para os perigos da desigualdade crescente e do desastre ambiental. Falou de paz quando o discurso oficial era o da guerra. Recusou o conformismo cúmplice com a indústria do armamento, com a xenofobia crescente, com a indiferença perante os pobres.
Mas durante anos, esses mesmos grandes meios de comunicação social – reféns dos interesses económicos e políticos que servem – raramente deram espaço de fundo às suas mensagens mais críticas. Ignoraram os seus apelos por uma nova economia, deturparam as suas encíclicas para lhes retirar o peso político, limitaram-se a elogiar a sua simpatia e a sua humildade, mas evitaram como puderam dar destaque às suas denúncias mais contundentes.
A verdade é que Francisco expôs, com coragem e clareza, as feridas abertas deste mundo globalizado: as migrações forçadas, a pobreza estrutural, a destruição do planeta, a cultura do descarte. E isso incomodava. Porque era demasiado político. Porque obrigava à reflexão – e, pior ainda, à ação. E o sistema mediático não gosta de quem desestabiliza o “business as usual”.
Agora que morreu, muitos dos seus mais ferozes críticos tentam reescrever a história. Fazem-se passar por admiradores. Escolhem frases bonitas e neutras para partilhar nas redes sociais, enquanto silenciam tudo o que realmente tornou Francisco uma figura incómoda. Assistimos, assim, ao espetáculo da falsa comoção, onde as lágrimas de crocodilo escorrem nos noticiários e nas tribunas de opinião, mas o legado do Papa continua a ser traído – pela mesma indiferença de sempre.
É preciso dizê-lo com todas as letras: Francisco foi progressista num mundo que tende à regressão. Foi cristão num tempo em que muitos, mesmo dentro da Igreja, preferem o dogma ao amor, a norma à compaixão, o poder ao serviço. O seu compromisso com os pobres, com a justiça social e com a Casa Comum não era um gesto de caridade paternalista – era um clamor por transformação radical.
Se há algo que devemos recusar neste momento de luto global, é a tentativa de suavizar a figura de Francisco, de esvaziá-lo politicamente, de o encaixar num molde “inofensivo”. Ele não foi inofensivo. Foi incómodo. E é por isso mesmo que deve ser lembrado.
Que a sua morte nos desafie – a pensar, a mudar, a resistir. E que o barulho das homenagens vazias não abafe a força das suas palavras, nem a urgência das suas causas.

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