A Falácia Libertária

Os neoliberais radicais que se auto-intitulam "libertários" e que apregoam uma liberdade ilusória através das suas políticas de desregulação e privatização representam uma das maiores fraudes ideológicas do nosso tempo. Disfarçam interesses de classe com um verniz de modernidade e meritocracia, mas, na essência, defendem uma liberdade apenas acessível a quem detém poder económico.

Prometem "libertar" os cidadãos da interferência do Estado, mas omitem que, numa sociedade profundamente desigual, a liberdade real — a de estudar, ter acesso à saúde, habitação condigna e trabalho digno — depende de condições materiais que só podem ser garantidas por políticas públicas robustas. A sua visão de liberdade ignora completamente as assimetrias de poder e riqueza, como se todos partíssemos da mesma linha de partida.

Querem reduzir o papel do Estado nas áreas sociais — como a saúde, a educação e a proteção laboral — mas não contestam os benefícios fiscais a grandes grupos económicos, os resgates bancários ou as rendas protegidas a certos sectores empresariais. Apregoam a eficiência do mercado, mas calam-se perante a conivência entre interesses privados e financiamento público. Ignoram que foi precisamente o Estado social que garantiu conquistas históricas em matéria de direitos laborais, proteção ambiental e defesa do consumidor.

As suas políticas ditas “libertárias” nada têm de libertadoras. São, na prática, um projeto de desmantelamento dos instrumentos que asseguram um mínimo de equidade social. Ao atacarem a regulação estatal, favorecem um modelo onde impera a lei do mais forte — ou, neste caso, do mais rico. Prometem acabar com os serviços públicos sob o pretexto da ineficiência, mas ocultam que os serviços privados propostos como alternativa serão inacessíveis para a maioria da população, aprofundando ainda mais a exclusão social.

Em Portugal, a Iniciativa Liberal (IL) é o rosto político desta ilusão perigosa. Através de um discurso bem produzido e visualmente apelativo, conseguem captar o descontentamento popular e disfarçar a dureza das suas propostas com jargão tecnocrático e slogans modernos. Mas por detrás do verniz gráfico e das promessas de “liberdade”, esconde-se um programa que mina a coesão social, enfraquece a democracia e promove uma sociedade ainda mais desigual.

A IL mostra-se admiradora e seguidista das políticas de Javier Milei, o presidente argentino cuja agenda ultraliberal tem devastado os serviços públicos, intensificado a pobreza e provocado uma degradação acelerada das condições de vida de boa parte da população. Ao apoiar uma figura que promove cortes brutais, destruição de direitos sociais e um discurso antissistema radical e desestabilizador, a IL revela não apenas o seu alinhamento ideológico com o extremismo económico, mas também a ausência de qualquer compromisso com a justiça social ou com a estabilidade democrática. Não se trata de um acaso retórico — é uma escolha política deliberada.

A IL promete uma liberdade que, na prática, só serve aos mais privilegiados. Propõe um país onde o Estado se demite das suas responsabilidades, deixando os cidadãos entregues à precariedade e ao mercado. É uma fraude intelectual e política: um projeto que serve interesses económicos específicos, mas que se vende como emancipador.

É fundamental desmascarar esta falácia libertária como ameaça concreta à justiça social, à democracia e à igualdade de oportunidades. A verdadeira liberdade não se constrói pela destruição do Estado social, mas pelo seu reforço enquanto garante dos direitos de todos.

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