Da Social-Democracia à Servidão Neoliberal: A Traição que Afunda a Europa

A Europa atravessa um momento de profunda decadência económica, social e moral, fruto de décadas de políticas neoliberais implementadas por forças partidárias que, outrora, se apresentavam como defensoras da social-democracia. Hoje, esse legado político está traído, esvaziado de conteúdo e transformado num mero instrumento da globalização predatória, ao serviço da alta finança e das grandes corporações transnacionais.

A liberalização financeira, a deslocalização industrial massiva, a destruição progressiva dos direitos laborais e a generalização da precariedade não surgiram por acaso: foram escolhas políticas deliberadas. As mesmas forças que, no pós-guerra, ajudaram a construir o Estado Social, optaram, nas últimas décadas, por o desmantelar. O pretexto foi quase sempre o mesmo: a inevitabilidade da “modernização”, da “austeridade” e da “responsabilidade orçamental”. A realidade, no entanto, é bem mais crua — trata-se de uma adesão ideológica plena ao neoliberalismo, à custa da dignidade dos povos.

A crise habitacional que assola inúmeras cidades europeias, impulsionada pela especulação imobiliária e pelo excesso de turismo, é apenas mais uma consequência desta lógica destrutiva. Mas talvez o mais chocante seja o silêncio, ou pior, a cumplicidade ativa dos media mainstream, que deixaram de cumprir o seu papel de vigilância democrática para se tornarem aparelhos de propaganda do “status quo”. Ignoram sistematicamente os efeitos da financeirização, promovem os discursos simplistas da extrema-direita e tratam como “radicais” todas as vozes que questionam o modelo atual.

A pandemia, a guerra na Ucrânia e o genocídio em curso na Palestina apenas tornaram mais visível o colapso moral das lideranças europeias. A resposta à crise foi sempre a mesma: proteger o capital, abandonar os mais vulneráveis e criminalizar qualquer oposição consequente. Como resultado, assistimos agora ao crescimento de forças reacionárias, autoritárias e xenófobas, que prometem soluções fáceis para problemas complexos — mas que, na verdade, são apenas a continuação, por outros meios, do mesmo projeto neoliberal.

Portugal não escapa a esta tendência. Em tempo de eleições, o discurso dominante empurra o país para a direita. A esquerda, cada vez mais residual, parece incapaz de se reinventar. O “centrão” político copia as fórmulas da extrema-direita, reproduz o seu léxico e, em muitos casos, aplica as suas políticas, com a habitual conivência dos media, que naturalizam o inaceitável e marginalizam qualquer alternativa transformadora.

Pior ainda, uma parte significativa da população, desiludida e desinformada, prepara-se para votar contra os seus próprios interesses. Há quem acredite sinceramente que partidos que defendem cortes fiscais para os mais ricos e a privatização de serviços essenciais trarão “liberdade” e “eficiência”, mesmo quando esses serviços são vitais para a sua própria sobrevivência. É o triunfo da propaganda sobre a consciência de classe.

A ilusão de que as novas direitas “truculentas”, “patrióticas” ou “populares” resolverão os problemas do presente é perigosa e infundada. Estas forças são, na verdade, profundamente cúmplices do modelo económico que dizem combater. Não querem menos neoliberalismo — querem-no mais agressivo, mais excludente, mais violento.

O que a Europa precisa é de uma ruptura profunda. Uma outra Europa, pacifista, ecologista, solidária e centrada nas necessidades dos seus povos. Uma Europa que recuse ser marioneta dos Estados Unidos e da sua máquina de guerra. Que confronte os abusos das grandes corporações. Que aplique os mesmos critérios de justiça a todos os conflitos e que volte a colocar a dignidade humana no centro da ação política.

Mas para isso, também a esquerda precisa de mudar. Precisa de coragem, de clareza e de projeto. Precisa de voltar a ser uma verdadeira alternativa — e não apenas uma nota de rodapé nas margens da governabilidade. O tempo é agora. Ou é reconstruída uma esquerda capaz de enfrentar a barbárie ou seremos todos arrastados por ela.

 

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