Direitas com Poder para Mudar a Constituição: Um Risco Real para a Democracia
As eleições legislativas de 18 de maio de 2025 deixaram claro:
Portugal entrou numa nova fase política, marcada por uma ascensão brutal da
direita neoliberal radical e da extrema-direita, também ela neoliberal. Embora
a revisão da Constituição ainda não esteja, pelo menos de forma explícita, na
agenda imediata da direita que formará governo, não podemos ignorar a perigosa
convergência de interesses e ideologias que se vai desenhando no horizonte.
É preciso dizê-lo sem rodeios: existe hoje, pela primeira vez desde
o 25 de Abril, uma maioria parlamentar com potencial para reescrever a
Constituição da República Portuguesa. E não se trata de uma revisão técnica,
pontual ou modernizadora. Trata-se da possibilidade real de uma reconfiguração
profunda e reacionária do regime democrático, dos direitos sociais e do Estado
que Abril instituiu.
As forças da direita radical e da extrema-direita, abertamente
hostis ao espírito e à letra da Constituição de 1976, têm deixado bem claro ao
que vêm: reduzir o papel do Estado, reverter direitos laborais, desmontar o
SNS, criminalizar a diferença, transformar a solidariedade em caridade, e pôr
fim à redistribuição de riqueza que garante algum equilíbrio num país marcado
por desigualdades históricas.
É verdade que a direita que assume agora o poder não colocou, para
já, a revisão constitucional no centro da sua agenda. Mas também é verdade que
nada, absolutamente nada, garante que no momento oportuno não ceda à pressão ou
à conveniência estratégica de se aliar às forças mais retrógradas e
autoritárias do espectro político para fazer avançar um projeto profundamente
contrário aos valores de Abril.
A história ensina-nos que as derivas autoritárias não nascem de um
dia para o outro. Constroem-se lentamente, em conivências silenciosas, em
pactos de poder, na normalização do discurso do ódio e da desigualdade, na
erosão subtil mas contínua das instituições democráticas.
Por isso, este é o momento de erguer a voz. De não banalizar o
perigo. De chamar as coisas pelos nomes. O que está em risco não é apenas um
conjunto de normas constitucionais. É o pacto social que nos une enquanto país,
é a ideia de que o Estado existe para proteger os mais frágeis, garantir
dignidade, promover justiça e assegurar liberdade.
A todos os que, com voto consciente ou com abstenção cúmplice, abriram
a porta a esta ameaça, parabéns. O vosso gesto foi mais do que político: foi
histórico. E não será esquecido.
Mas a todos os que acreditam ainda na força de Abril, na democracia
participada, no Estado social, na igualdade de oportunidades e na liberdade
como bem maior, agora é a hora. Hora de resistência, de mobilização, de luta
política e cultural. Porque o futuro ainda pode ser nosso, se não desistirmos
dele.

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