O Oprimido Contra o Oprimido: A Vitória do Obscurantismo

Assistimos a um crescimento alarmante do obscurantismo, alimentado por forças políticas e partidárias de extrema-direita, reacionárias e de inspiração fascista. Estas forças propagam mentiras e falsas perceções com uma eficácia viral através das redes sociais, explorando o medo, o ressentimento e a desinformação.

Décadas de neoliberalismo e de globalização desenfreada têm vindo a desmantelar, de forma acelerada, a herança social construída no pós-guerra na Europa Ocidental e, no caso português, no pós-25 de Abril. Esse legado, assente num Estado social robusto, com garantias de direitos laborais, proteção social e acesso à educação, à saúde e à habitação está a ser destruído. Hoje, a precariedade laboral tornou-se norma, o acesso aos serviços públicos de saúde é cada vez mais difícil, e as desigualdades sociais aprofundam-se. A distância entre os mais ricos e os mais pobres cresce de forma vertiginosa, e a classe média vê-se empurrada para os níveis de vida dos estratos mais baixos da sociedade.

As forças políticas que, teoricamente, deveriam defender este modelo social democrático traíram-no, abraçando sem reservas o neoliberalismo como modelo único e inevitável, eliminando qualquer possibilidade de alternativa progressista. Foi nesse vazio, nesse sentimento generalizado de traição e abandono, que os demagogos da extrema-direita encontraram terreno fértil.

Com discursos simplistas, mas eficazes, a extrema-direita oferece bodes expiatórios fáceis: imigrantes, minorias étnicas, pessoas beneficiárias de apoios sociais, desviando a atenção das verdadeiras causas do mal-estar: as políticas económicas de concentração de riqueza, privatização de bens públicos e destruição dos direitos laborais. De forma perversa, conseguem transformar vítimas em culpados, e culpados em salvadores.

A grande contradição — que permanece invisível para muitos — é que a extrema-direita, apesar de se apresentar como alternativa ao “sistema”, defende no essencial o mesmo modelo económico neoliberal que está na origem do descontentamento social. A sua retórica pode vestir-se de nacionalismo económico ou de defesa da classe trabalhadora, mas os seus programas concretos continuam a promover a desregulação dos mercados, o enfraquecimento dos sindicatos, os cortes na despesa pública e a privatização de serviços essenciais. O seu “antissistema” é, na verdade, uma radicalização do sistema vigente.

O mais preocupante é que esta contradição raramente é percebida pelos seus apoiantes. Falta pensamento crítico. Falta capacidade para identificar as causas estruturais do mal-estar. Falta educação política e cívica que permita distinguir entre discurso emocional e análise racional. Assim, milhões de cidadãos, esmagados por um sistema injusto, tornam-se, paradoxalmente, instrumentos da sua própria opressão, apoiando partidos e líderes que aprofundarão a sua miséria.

Este défice de pensamento crítico manifesta-se de forma evidente nos novos meios de comunicação. As redes sociais, em vez de servirem como plataformas de debate informado ou de consciencialização, tornaram-se reprodutoras de narrativas falaciosas. As massas populares, frequentemente desorientadas e carentes de instrumentos analíticos, utilizam esses meios não para questionar, mas para amplificar slogans, desinformação e discursos preconceituosos, muitas vezes com um entusiasmo quase militante. Partilham conteúdos sem verificação, aderem a teorias conspirativas com aparente convicção, e reagem emocionalmente a títulos, imagens ou frases soltas, sem procurar compreender contextos ou intenções. O pensamento crítico, nesse ambiente, é substituído por reações instintivas, reforçadas por algoritmos que favorecem o sensacionalismo e a polarização.

Em vez de se unirem para exigir justiça social, emprego digno, saúde e educação públicas de qualidade, viram-se contra os mais vulneráveis, os que estão ainda mais abaixo na hierarquia social. E essa inversão perversa ganha ainda mais força com a normalização do preconceito, tantas vezes disfarçado de “opinião legítima” ou “liberdade de expressão”. Mas quando essa liberdade serve para marginalizar e atacar, já não é liberdade, é conivência.

O mais trágico é que mesmo aqueles que se consideram modernos, progressistas ou tolerantes muitas vezes não escapam a esta lógica, reproduzindo medos e estigmas que sustentam o preconceito social.

Sem uma revitalização do pensamento crítico, sem uma rutura clara com o consenso neoliberal, e sem coragem para construir alternativas concretas de justiça social, a deriva obscurantista continuará a crescer. E crescerá, tragicamente, com o apoio daqueles que mais têm a perder.

 

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