O Papel ativo dos Media no Cenário Político Atual

A recente configuração parlamentar saída das eleições legislativas de 18 de maio em Portugal revela uma viragem política profunda: a consolidação de um bloco de direita quase hegemónico, a ascensão meteórica da extrema-direita que, num cenário inédito, ameaça ultrapassar o Partido Socialista e tornar-se a principal força da oposição, e a derrocada das esquerdas, com destaque para o quase desaparecimento da esquerda radical do espaço parlamentar.

Perante este novo cenário, os media mainstream, sobretudo os canais de televisão e os seus comentadores, voltam à carga com um discurso repetido: a esquerda perdeu por culpa própria e precisa de fazer um exercício profundo de autocrítica. Esta análise, embora não desprovida de pertinência, é incompleta e perigosamente limitada. Na verdade, mais urgente e negligenciada é a reflexão que os próprios media deveriam fazer sobre o papel central que desempenharam neste virar de página político. Porque, em boa verdade, os media em Portugal têm uma responsabilidade significativa, se não determinante, na legitimação da extrema-direita e na descredibilização sistemática das esquerdas.

Durante anos, os principais órgãos de comunicação social trataram a extrema-direita como um fenómeno de entretenimento. Deram-lhe espaço, voz e tempo de antena de forma acrítica, quase reverencial, como se se tratasse de uma novidade colorida no debate político nacional. Ignoraram ou minimizaram o conteúdo profundamente antidemocrático e regressivo dos seus discursos, normalizando expressões de ódio, intolerância e revisionismo histórico. A extrema-direita foi promovida como se fosse apenas uma opinião alternativa, e não aquilo que verdadeiramente representa: uma ameaça real aos direitos humanos, à democracia e ao Estado Social.

Este processo de normalização mediática foi acompanhado de uma campanha contínua de descredito das forças de esquerda. Sempre que a esquerda apresentou propostas progressistas, sejam elas o reforço dos direitos laborais, medidas de redistribuição da riqueza, políticas públicas de habitação, ou a defesa dos serviços públicos, estas eram invariavelmente classificadas como utópicas, perigosas ou ideologicamente radicais. O neoliberalismo foi sendo apresentado como um dado adquirido, uma inevitabilidade técnica, e não como uma escolha política passível de ser debatida e contrariada. As vozes críticas ao sistema económico dominante foram empurradas para a margem, ridicularizadas ou desautorizadas.

Esta asfixia mediática das esquerdas contribuiu para um enfraquecimento progressivo do seu apoio social. Ao mesmo tempo, alimentou-se um ressentimento popular que a extrema-direita soube capitalizar. Ao surgir como "anti-sistema", a extrema-direita ocupou o espaço do protesto e da indignação que historicamente pertenceu à esquerda. E fê-lo com a conivência de uma comunicação social mais interessada em audiências do que em responsabilidade democrática.

É imperativo que os media portugueses façam uma reflexão profunda sobre o seu papel na sociedade. A liberdade de imprensa é um pilar fundamental da democracia, mas essa liberdade traz consigo uma enorme responsabilidade. Não é aceitável que a busca pelo espetáculo suplante o dever de informar com rigor, contextualização e espírito crítico. A democracia não se protege sozinha. Quando os media falham na sua missão, os alicerces do debate democrático vacilam, e os projectos autoritários encontram terreno fértil para prosperar.

A esquerda, sem dúvida, tem de fazer a sua parte: reorganizar-se, reaproximar-se das classes populares, reavaliar a sua linguagem, os seus métodos e as suas alianças. Mas nada disso será suficiente se os media continuarem a favorecer uma paisagem política onde o neoliberalismo é tratado como dogma e a extrema-direita como espetáculo inofensivo. A democracia portuguesa exige mais. E exige, sobretudo, que a comunicação social volte a cumprir o seu papel cívico com independência, coragem e sentido de missão.

 

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