O Peso de Falar Quando Todos se Calam
Vivemos tempos perigosos. Não
apenas pelos ventos reacionários que sopram com força nos corredores do poder
político, mas sobretudo pela forma como esse mesmo reacionarismo se instala,
subtil e sorrateiramente, no quotidiano social. Não chega apenas pelos
discursos inflamados da extrema-direita ou pelos algoritmos das redes sociais.
Ele manifesta-se também — e talvez com mais impacto — nas conversas entre
amigos, nos jantares de família, nas entrelinhas dos comentários feitos por
colegas, vizinhos, conhecidos. E, o que é mais desconcertante, por vezes até
daqueles que sempre julgámos progressistas ou, no mínimo, sensíveis à justiça
social.
Assistimos a uma crescente
hostilidade — disfarçada de bom senso, muitas vezes mascarada de racionalidade
ou "equilíbrio" — face aos movimentos das minorias sexuais, étnicas e
culturais. Grupos que durante décadas lutaram e continuam a lutar pelo direito
básico à existência, à dignidade e à visibilidade, são agora alvo de um discurso
difuso de rejeição, que os acusa de "exagero", de
"imposição", de estarem a forçar uma "agenda" sobre os
demais.
É um fenómeno particularmente
perverso: o oprimido passa a ser visto como opressor. O simples ato de reivindicar
direitos é confundido com ameaça; o apelo à inclusão é lido como exclusão do
que é "tradicional"; e a promoção da diversidade é tratada como
fragmentação da sociedade. Tudo isto envolto em discursos que se querem
moderados, civilizados — mas que escorregam facilmente para a desumanização.
Ainda mais preocupante é a
forma como estas perceções ganham legitimidade através da normalização do
preconceito, tantas vezes disfarçado de opinião legítima ou “liberdade de
expressão”. O problema é que esta liberdade, quando serve para marginalizar os
mais vulneráveis, já não é apenas liberdade — é conivência. E pior: muitas
vezes, os mesmos que se dizem abertos, modernos e tolerantes são os que, na
prática, reproduzem os mesmos estigmas e medos que sustentam o preconceito
social.
Neste contexto, tornar visível
esta realidade tornou-se não só difícil, mas perigoso. Expressar posições
críticas em relação à maré reacionária tem um custo. Há um risco real em falar:
de ser ridicularizado, ostracizado, acusado de radicalismo ou de “querer impor
uma cartilha ideológica”. Tentar desmontar os mecanismos subtis da intolerância
é muitas vezes visto como uma provocação, e não como um apelo à reflexão. Há um
cansaço social que recusa escutar — e isso, por si só, já é uma forma de
resistência passiva ao progresso.
Mas calar é ceder. E ceder,
neste caso, é permitir que o medo e a ignorância moldem o futuro colectivo. A
luta pelas minorias — sejam elas sexuais, étnicas, culturais ou económicas — não
é uma ameaça à liberdade: é a sua concretização mais plena. Defender os seus
direitos não é dividir a sociedade, é expandi-la para que nela caibam todos. E
é precisamente quando essa expansão é mais temida que a nossa responsabilidade
moral em defendê-la se torna mais urgente.
A história mostrou-nos vezes
demais o que acontece quando os discursos de ódio passam despercebidos ou são
tratados com indiferença. Não repitamos esse erro. Não sejamos cúmplices, ainda
que pelo silêncio.

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