Tribunais para Uns, Genocídio para Outros, O Descrédito Final da Europa


 

No Dia da Europa, as elites europeias exibem o auge da hipocrisia moral: exigem justiça para uns, enquanto patrocinam o extermínio de outros. É o fim do mito humanista europeu.

Por José Vaz e Silva

Vivemos um dos momentos mais sombrios da nossa era e as máscaras da civilização europeia estão a cair com estrondo. Em Gaza, um povo inteiro está a ser chacinado a sangue-frio, com bombas, fome, sede e doença. Crianças morrem às centenas. Famílias são varridas do mapa. Hospitais transformam-se em cemitérios. E o que fazem as elites políticas europeias e portuguesas? Silenciam, justificam, relativizam ou, pior ainda, apoiam o massacre.

Este não é um conflito. Não é uma guerra convencional. É um crime continuado contra a humanidade. É genocídio, com todas as letras e, embora os grandes meios de comunicação o abafem ou distorçam, a verdade chega-nos, fragmentada mas clara, através dos meios alternativos e de jornalistas corajosos no terreno.

A União Europeia, que adora encher a boca com a retórica dos direitos humanos e da democracia, revela-se agora pelo que é: uma máquina hipócrita, apodrecida pela cobardia, pela subserviência geopolítica e pela duplicidade moral. Os líderes das principais capitais europeias, Berlim, Paris, Madrid, Roma, Lisboa, lavam as mãos como Pilatos, enquanto financiam e legitimam um regime que comete atrocidades ao estilo das piores páginas do século XX.

Hoje, Dia da Europa, os mesmos líderes que assistem em silêncio ou com aplausos ao extermínio do povo palestiniano, anunciam com o maior dos desplantes a criação de um tribunal internacional para julgar os crimes da Rússia na guerra contra a Ucrânia. É de um cinismo abjeto. Julgam-se moralmente superiores, defensores da legalidade internacional, enquanto patrocinam, com armas, cumplicidade diplomacia e dinheiro, a chacina em Gaza. A dualidade de critérios destas elites é obscena: clamam por justiça em Kiev, mas fecham os olhos ao sangue derramado em Rafah. Lamentam os mortos europeus, mas desprezam os corpos palestinianos como se valessem menos. É uma justiça racializada, seletiva, colonizada. É a consagração da hipocrisia como doutrina política. É o descrédito total da Europa e do seu pretenso humanismo. Um esvaziar absoluto dos valores em que se diz fundada.

Em Portugal, a vergonha não é menor. O centrão político alinha, cúmplice, com a narrativa dos agressores. A direita radical e a extrema-direita, por seu lado, expõem sem pudor a sua desumanidade, aplaudindo abertamente a violência como forma de "autodefesa". É a normalização do terror, disfarçado em discursos civilizados e oportunistas.

E depois temos os media mainstream, os mesmos que se vendem como “guardiões da verdade” e “vigilantes do poder”. Onde estão agora? Onde está a coragem editorial, a denúncia firme, a reportagem honesta? O que vemos, dia após dia, é uma cobertura vergonhosa, cúmplice, anestesiante. Uma narrativa assente em simetrias falsas, desinformação deliberada e uma linguagem que suaviza o horror para não incomodar interesses instalados.

O povo palestiniano está a ser exterminado. E as elites do chamado “mundo civilizado” limitam-se a assistir — ou a aplaudir. A História não esquecerá. E nós, cidadãos com consciência, temos o dever de nomear esta barbárie e expor sem contemplações os que a tornam possível.

Não há neutralidade possível perante o genocídio. Ou se está com os oprimidos ou com os seus carrascos.

A hipocrisia destas elites, o seu cinismo calculado, a frieza com que assistem, ou incentivam a destruição de um povo, causam-me náuseas. Sinto uma repulsa visceral por todos aqueles que, com cargos de poder ou plataformas de influência, optaram por trair os princípios mais básicos da dignidade humana. Não esquecerei. E não perdoarei.

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