Os Tempos Nublosos

Já o disse antes, mas, perante o rumo que as coisas estão a tomar, repito-o com cada vez mais ênfase: vivemos os tempos mais sombrios de que tenho memória. E estou cada vez mais convencido de que caminhamos para uma ditadura reacionária, com traços neofascistas e neoliberais, que ameaça aniquilar por completo o progressismo cultural e social que marcou a Europa do pós-guerra.

Mas não será uma ditadura férrea, sustentada por uma repressão estatal explícita, como as que conhecemos e, no caso português, vivemos durante quase cinquenta anos. Será uma ditadura da maioria, que não tolera a diferença.

Os sinais estão por todo o lado, visíveis para quem quiser ver, ou melhor, para quem ousar sentir: nas conversas casuais, nos discursos de café e, espantosamente, até nos comentários de muitos que nos são próximos. A aceitação e até a reafirmação do discurso reacionário e intolerante perante a diferença são reais, cada vez mais generalizadas e mais radicais.

Assistimos a uma crescente hostilidade dirigida aos movimentos das minorias sexuais, étnicas e culturais, movimentos que, durante décadas, lutaram (e continuam a lutar) pelo direito básico à dignidade, à visibilidade e à existência. Hoje, são acusados, cada vez mais abertamente, de "exagerar", de "impor", de forçar uma "agenda" sobre os demais.

Tudo isto é profundamente perverso: o oprimido é retratado como opressor, o agressor, dependendo do lado em que está, é visto como vítima. O simples ato de reivindicar direitos é confundido com ameaça, o apelo à inclusão, é entendido como imposição e a promoção da diversidade é tratada como uma fragmentação perigosa da sociedade.

É assustador ver como estas perceções ganham legitimidade através da normalização do preconceito. Vivemos isso, cada vez com mais frequência, nas interações quotidianas, quase sempre em nome de uma suposta liberdade. Mas, quando essa liberdade serve para marginalizar o que é diferente, já não é liberdade. É opressão.

Mais inquietante ainda é o facto deste discurso surgir, por vezes, de quem se afirma aberto, moderno e tolerante, mas que, no fundo, reproduz os mesmos estigmas e medos que sustentam o preconceito social.

Esta onda social reacionária é também o reflexo direto das narrativas, das atitudes, das posturas e das traições das elites dirigentes, cujos discursos os media mainstream reproduzem de forma acrítica e obediente. Assistimos hoje às mais indecentes desfaçatezes, tanto nas políticas internas como nas relações internacionais dos Estados sob controlo dessas elites. Com a maior das impunidades, transformam vítimas em agressores, condenam alguns crimes com veemência, mas são cúmplices de outros, de forma clara e sem pudor. E fazem-no tentando infantilizar a opinião pública, como se as massas fossem crianças numa creche, incapazes de discernimento crítico. Vejamos apenas um exemplo recente: Israel atacou o Irão de forma ilegal, num ato claro de terrorismo de Estado. E como reagiram essas elites? Com a habitual desfaçatez: transformaram os criminosos agressores em vítimas. Mas este é apenas um caso entre muitos. A atual desordem moral e política do mundo é inseparável da irresponsabilidade destas elites e da forma como manipularam, e continuam a manipular, os discursos públicos.

Torna-se, assim, cada vez mais difícil, e arriscado até, expressar posições críticas em relação à maré reacionária em curso. Há um risco real em falar: o de se ser ridicularizado, ostracizado, acusado de radicalismo ou de “querer impor uma cartilha ideológica”. Procurar desmontar os mecanismos subtis da intolerância é muitas vezes visto como uma provocação, e não como um apelo à tolerância e à razão.

Mas calar é ceder. E ceder, neste caso, é permitir que o medo e a ignorância moldem o futuro coletivo.

A luta das minorias, sejam elas sexuais, étnicas, culturais ou económicas, não é uma ameaça à liberdade. É a sua concretização mais plena. Defender os seus direitos não é dividir a sociedade, é expandi-la, para que nela caibam todos. E é precisamente quando essa expansão é mais temida que a nossa responsabilidade moral em defendê-la se torna mais urgente.

 

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