A Colonização da Palestina, o Projeto Sionista e o Genocídio em Curso

Introdução

A análise do atual cenário na Palestina, em especial da ofensiva contínua contra a população da Faixa de Gaza, exige uma abordagem histórica e política rigorosa. O que hoje se apresenta como “conflito” entre Israel e Palestina tem, na verdade, origem num processo contínuo de colonização, ocupação militar e limpeza étnica, conduzido por um projeto político específico: o sionismo. A compreensão dessa dinâmica é essencial para desmistificar a retórica dominante, que frequentemente confunde crítica ao sionismo com antissemitismo, com o objetivo claro de silenciar denúncias.

1. O Sionismo: Movimento Político, Não Religioso

O sionismo é um movimento político nacionalista, fundado no final do século XIX por Theodor Herzl, que propôs a criação de um Estado judeu como resposta ao antissemitismo europeu. Desde o início, o movimento sionista identificou a Palestina como alvo principal de colonização, apesar da região já ser habitada por uma população nativa árabe diversa, composta por muçulmanos, cristãos e judeus.

É importante sublinhar que o sionismo não representa o judaísmo, uma tradição religiosa milenar, e tampouco é consensual entre judeus. Muitos rabinos e movimentos judaicos, como os Neturei Karta ou o Jewish Voice for Peace, opõem-se veementemente ao sionismo e denunciam a ocupação da Palestina como incompatível com os valores judaicos.

2. O Mandato Britânico e a Partilha Impositiva

Com a Declaração Balfour (1917), o governo britânico comprometeu-se a apoiar a criação de um “lar nacional judeu” na Palestina, ignorando completamente os direitos da população nativa. Durante o Mandato Britânico da Palestina, as tensões entre colonos sionistas e palestinianos aumentaram, levando a revoltas populares e repressões brutais.

Em 1947, a ONU aprovou o Plano de Partilha da Palestina, atribuindo 56% do território aos judeus, que então representavam apenas cerca de 30% da população. Os palestinianos rejeitaram a proposta por considerarem-na injusta, expropriatória e violadora do princípio da autodeterminação.

3. A Nakba e a Fundação do Estado de Israel

Em 1948, com a declaração unilateral do Estado de Israel, iniciou-se a Nakba (catástrofe): a expulsão forçada de mais de 750.000 palestinianos e a destruição de cerca de 500 vilas e cidades árabes. A operação foi executada por milícias sionistas, como o Irgun e a Haganah, e incluía massacres emblemáticos como o de Deir Yassin.

Israel nasceu assim não como um refúgio seguro, mas como um Estado fundado sobre a limpeza étnica, cuja política de exclusão racial continua até os dias de hoje.

4. Ocupação, Expansão e Apartheid

Na Guerra dos Seis Dias (1967), Israel ocupou a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza, territórios reconhecidos internacionalmente como palestinianos. Desde então, a expansão de colónias ilegais em territórios ocupados tem sido uma política de Estado, acompanhada da destruição de casas, expulsão de famílias e repressão armada.

Organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch classificam a política israelita como apartheid, dado o sistema de leis e práticas que discriminam sistematicamente a população palestiniana com base em sua origem étnica e religiosa.

Em Gaza, apesar da retirada dos colonos em 2005, Israel impôs um bloqueio total que transformou o enclave em prisão a céu aberto, onde a população vive sob sitiamento permanente e escassez de alimentos, água potável, energia e medicamentos.

5. O Genocídio em Curso

Desde outubro de 2023, a escalada militar israelita contra Gaza atingiu níveis sem precedentes. Bombardeamentos sistemáticos sobre áreas residenciais, hospitais, escolas e instalações da ONU resultaram na morte de dezenas de milhares de civis, entre os quais milhares de crianças.

Relatórios de relatores da ONU, especialistas em genocídio e juristas internacionais apontam para intenção genocida, confirmada por declarações públicas de líderes israelitas, que desumanizam a população palestiniana e tratam a Faixa de Gaza como alvo legítimo de extermínio coletivo.

6. A Criminalização da Crítica e o Manto do Antissemitismo

A crítica ao sionismo e às políticas de Israel é frequentemente confundida ou intencionalmente apresentada como antissemitismo, numa tentativa de deslegitimar a denúncia de crimes de guerra, apartheid e genocídio. Essa manobra, amplamente utilizada pelas diplomacias ocidentais, pelos media mainstream, comentadores e fazedores de opinião, busca blindar Israel de sanções e investigações internacionais, mesmo diante de flagrantes violações do Direito Internacional Humanitário, mas sobretudo, pretende manipular as mentes das massas populares para que aceitem o engodo sem protesto.

No entanto, há uma distinção incontornável: criticar um Estado moderno, armado e expansionista de Israel ou a ideologia política que o sustenta, o sionismo, não é antissemitismo. É um dever ético e jurídico de todos que defendem a dignidade humana, a justiça e o fim da ocupação colonial.

Conclusão

A situação na Palestina não pode ser compreendida como um “conflito” entre dois lados simétricos. Trata-se de uma relação de colonizador e colonizado, de ocupante e ocupado, onde um regime com poder militar, nuclear e econômico impõe-se sobre uma população desarmada, sitiada e fragmentada.

A crítica ao sionismo e à ocupação israelita não é apenas legítima, é necessária, especialmente quando crimes contra a humanidade são cometidos à vista de todos. A solidariedade com o povo palestiniano é uma expressão de coerência histórica, moral e jurídica.


Notas e Referências:

Edward Said, The Question of Palestine, Vintage Books, 1979.
Link para obra ou citação indireta via Google Books

Edward Said, Culture and Imperialism, Vintage Books, 1993.
https://books.google.com/books/about/Culture_and_Imperialism.html?id=YyGfQgAACAAJ

Noam Chomsky, Fateful Triangle: The United States, Israel, and the Palestinians, South End Press, 1983.
https://books.google.com/books/about/Fateful_Triangle.html?id=XYDgAAAAMAAJ

Noam Chomsky – entrevistas sobre Gaza em Democracy Now!
https://www.democracynow.org/appearances/noam_chomsky

Gideon Levy, artigos no Haaretz
https://www.haaretz.com/misc/writers/WRITER-1.5290185

Francesca Albanese, UN Human Rights Council Report – A/HRC/52/76, março de 2023.
https://www.ohchr.org/en/documents/thematic-reports/ahrc5276-occupied-palestinian-territory-70-years-temporary-occupation

Breno Altman, Jornal da Fórum – “Israel é o Estado do sionismo, não dos judeus”, 13 de outubro de 2023.
https://revistaforum.com.br/politica/2023/10/13/breno-altman-israel-no-o-estado-dos-judeus-sim-do-sionismo-147789.html

Breno Altman, TV 247 – Entrevista sobre sionismo e antissemitismo.
https://www.brasil247.com/midia/breno-altman-explica-diferenca-entre-judaico-e-sionista

Jamile Abdel Latif, A Verdade – “Palestinos não desistem, palestinos resistem”, novembro de 2023.
amile Abdel Latif, discurso em ato público – São Paulo, outubro de 2023.
(Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=VCxDR_Kb4W8)

Nelson Mandela, Discurso no Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, 1997.
https://www.anc1912.org.za/nelson-mandela-speech-palestinian-solidarity-day-1997/
Desmond Tutu, artigo em The Guardian – “Apartheid in the Holy Land”, 2002.
https://www.theguardian.com/world/2002/apr/29/comment

Yeshayahu Leibowitz, Judaism, Human Values, and the Jewish State, Harvard University Press, 1992.
https://www.hup.harvard.edu/books/9780674480680

Avi Shlaim, The Iron Wall: Israel and the Arab World, W.W. Norton & Company, 2000.
https://books.wwnorton.com/books/The-Iron-Wall/

Perspectivas Históricas - Palestina, historia y resistência.
https://www.youtube.com/watch?v=mdvvUAbxWic&t=309s

Decirse neutral frente a un genocidio es tomar partido por el genocida.
https://www.youtube.com/watchv=Crl3jd49mWo&list=TLPQMzEwNzIwMjW_EwhG8o1kXg&index=2
 

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