A Desilusão de um ingénuo

Sempre acreditei, com uma ingenuidade quase infantil, que o Holocausto nazi não teria acontecido se as pessoas decentes, os líderes decentes, tivessem sabido o que se passava. Pensava que a humanidade, confrontada com tal horror, ergueria um grito de revolta capaz de abalar o mundo.

Hoje, vejo um genocídio em direto, transmitido para todo o planeta, e a resposta é um silêncio ensurdecedor. Governos ditos civilizados mantêm-se calados ou cúmplices.
Os média minimizam, relativizam, desviam o olhar.
Os intelectuais refugiam-se em silêncios cómodos ou em equidistâncias cobardes.
Os artistas, outrora voz de resistência e consciência, emudeceram.
Ativistas que marcharam por todas as causas parecem agora estranhamente ausentes.
E as pessoas comuns? Continuam com as suas rotinas, como se nada de extraordinário estivesse a acontecer.

Que ingénuo fui. A humanidade não aprendeu nada. Não há indignação que resista ao pragmatismo político, não há compaixão que sobreviva ao medo de perder privilégios. O genocídio de hoje é filmado, documentado, escancarado e ainda assim, a máquina do mundo gira, indiferente.

Afinal, o problema não era a falta de informação. O problema é a humanidade mesma. Um desastre ambulante, uma espécie incapaz de proteger os seus, de erguer-se contra a barbárie quando esta veste as roupas certas e fala as palavras aceitáveis.

Sinto que perdi, talvez para sempre, a pouca esperança que ainda me restava na humanidade.
Porque aquilo que estamos a testemunhar não é apenas a prática de um genocídio por parte de um estado pária com o beneplácito das grandes potências mundiais. É, acima de tudo, a indiferença esmagadora de uma civilização que já nem tenta disfarçar o desprezo pela vida humana quando esta não serve os seus interesses.

Restam-me as cinzas da desilusão. E a certeza de que, se um dia a História nos julgar, seremos todos cúmplices.

 


 

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