A Traição da Europa: Como o Neoliberalismo Corrompeu o Continente por Dentro
A Europa contemporânea é o palco de uma profunda e visível
decadência económica, social e moral. Este declínio não é um acidente
histórico, mas o resultado direto de décadas de políticas neoliberais,
implementadas ironicamente por muitas das mesmas forças partidárias que,
outrora, se apresentavam como as guardiãs da social-democracia. O legado do
pós-guerra, assente no Estado Social e na dignidade do trabalho, foi traído,
esvaziado de conteúdo e transformado num mero instrumento da globalização
predatória, ao serviço da alta finança e das corporações transnacionais.
As Raízes Históricas do Neoliberalismo e a sua Imposição
à Europa
Para compreender a situação atual, é crucial recuar às
origens ideológicas do neoliberalismo. Nascido nas décadas de 1930 e 1940, em
círculos intelectuais como a Sociedade Mont Pelerin, e com teóricos como
Friedrich Hayek e Milton Friedman, o neoliberalismo era uma reação radical ao
consenso keynesiano e ao Estado Social. A sua doutrina era simples: o mercado
deveria ser a força organizadora central da sociedade, e o papel do Estado
deveria limitar-se a proteger a propriedade privada e a garantir o
funcionamento dos mercados. Privatização, desregulação e cortes na despesa
social tornaram-se o seu evangelho.
Durante décadas, estas ideias permaneceram marginais.
Contudo, a crise do petróleo e a estagflação dos anos 70 abriram uma janela de
oportunidade. Com as experiências-piloto no Chile de Pinochet e, mais tarde,
com a chegada ao poder de Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos
EUA, o neoliberalismo passou de teoria a prática governativa.
A sua imposição à Europa continental foi mais gradual e
insidiosa. Deu-se em várias etapas, muitas vezes sob o disfarce de
"modernização" e "integração europeia":
- O
Ato Único Europeu (1986): Este tratado foi o cavalo de Troia do
neoliberalismo. Ao consagrar as "quatro liberdades" de
circulação (bens, serviços, pessoas e, crucialmente, capital), abriu as
portas à desregulação financeira e à livre movimentação de capitais,
permitindo que as empresas procurassem os menores custos laborais e
fiscais, iniciando um processo de nivelamento por baixo.
- O
Tratado de Maastricht (1992): Ao criar a União Europeia e estabelecer
as bases para a moeda única, Maastricht cimentou a ortodoxia neoliberal.
Impôs critérios de convergência rígidos (défice, dívida pública) que
forçaram os Estados a adotar políticas de austeridade permanentes, limitando
a sua capacidade de investimento social e de resposta a crises económicas.
O Banco Central Europeu foi criado como uma entidade
"independente", imune ao controlo democrático e com um único
mandato: o controlo da inflação, muitas vezes à custa do emprego e do
crescimento.
- A
"Terceira Via" e a Traição Social-Democrata: Nos anos
90, figuras como Tony Blair no Reino Unido e Gerhard Schröder na Alemanha
protagonizaram a chamada "Terceira Via". Na prática, foi a
capitulação ideológica da social-democracia. Partidos que historicamente
defendiam os trabalhadores abraçaram a desregulação dos mercados
financeiros, as privatizações e a flexibilização do mercado de trabalho.
Ao aceitarem a premissa neoliberal de que "não há alternativa"
(TINA - There Is No Alternative), legitimaram o desmantelamento
do Estado Social que os seus antecessores tinham construído.
A Globalização Neoliberal e a Desindustrialização:
"Marca Sim, Produto Não"
A deslocalização industrial massiva que esvaziou regiões
inteiras da Europa não foi uma fatalidade, mas uma consequência lógica deste
modelo. A ativista e autora Naomi Klein, no seu seminal livro "No
Logo", diagnosticou de forma brilhante esta transição sob o lema "marca
sim, produto não". A lógica corporativa deixou de ser a de produzir bens
de qualidade nas suas fábricas de origem, passando a ser a de construir e gerir
marcas globais poderosas. A produção física, o "trabalho sujo", foi
externalizada para países com mão de obra barata, sem direitos laborais e com
fracas regulações ambientais.
As empresas europeias, da indústria têxtil à automóvel,
aderiram em massa a este modelo. Fecharam fábricas em França, no Reino Unido,
em Itália ou em Portugal, e passaram a subcontratar a produção na Ásia ou na
Europa de Leste. O que restou na Europa Ocidental foi o marketing, o design e a
gestão financeira, atividades de alto valor acrescentado para uma elite, mas
que não sustentam uma base social ampla. A destruição progressiva dos direitos
laborais e a generalização da precariedade foram as consequências diretas para
quem ficou.
A Carnificina Ambiental e a Fraude do
"Greenwashing"
Este modelo de desenvolvimento neoliberal é inerentemente
insustentável. A sua lógica de crescimento infinito e de hiperconsumo choca
frontalmente com os limites de um planeta finito. As consequências são
devastadoras: poluição massiva de rios e solos, esgotamento de recursos
naturais, uma perda de biodiversidade sem precedentes e uma crise climática que
ameaça a própria civilização.
Confrontado com uma crescente consciência pública, o sistema
adaptou-se através do "greenwashing" (propagandismo
verde). As mesmas corporações que mais poluem e que mais recursos consomem
investem milhões em campanhas de marketing para se apresentarem como
"verdes", "sustentáveis" e "ecologicamente
responsáveis". Promovem "soluções" de mercado, como créditos de
carbono ou produtos "neutros em carbono", que não passam de uma
cortina de fumo para manter o status quo. A verdade é que não pode
haver sustentabilidade genuína num modelo económico predatório, cuja
sobrevivência depende da mercantilização e exploração da natureza. O equilíbrio
ambiental exige uma rutura com a lógica do lucro e do crescimento a todo o
custo, algo que o neoliberalismo é incapaz de oferecer.
O Papel Nefasto dos Media: Arquitetos do Consenso e
Impulsionadores da Extrema-Direita
Nada disto teria sido possível sem o silêncio, ou pior, a
cumplicidade ativa dos grandes meios de comunicação social. Deixando de cumprir
a sua função de vigilância democrática, os media mainstream, na sua
maioria adquiridos por grandes conglomerados económicos com interesses diretos
no modelo vigente, tornaram-se aparelhos de propaganda.
Durante décadas, promoveram a narrativa de que o
neoliberalismo era a única via possível, tratando qualquer alternativa como
"radical", "populista" ou "irresponsável".
Ignoraram sistematicamente os efeitos da financeirização, celebraram a
"austeridade" como uma virtude e marginalizaram as vozes críticas.
Ajudaram de sobremaneira a desacreditar a esquerda e arrasaram com a extrema
esquerda.
Esta atuação teve uma consequência direta e trágica: ao
deslegitimar a esquerda consequente e ao ignorar as causas profundas do
descontentamento popular (precariedade, desigualdade, perda de soberania),
os media criaram um vácuo político. A extrema-direita, com os
seus discursos simplistas, nacionalistas e xenófobos, preencheu esse vácuo de
forma meteórica. Os media deram-lhes uma plataforma
desproporcional, normalizaram as suas ideias e trataram-nas como uma parte
legítima do debate, enquanto a verdadeira esquerda era silenciada. Assim,
os media são diretamente responsáveis (não os únicos) não só
pelo desaparecimento da esquerda transformadora do debate público, mas também
pela ascensão de forças reacionárias que ameaçam os próprios alicerces da
democracia.
Portugal e o Triunfo da Propaganda sobre a Consciência
Portugal não é exceção. O discurso dominante, amplificado
pelos mesmos canais, empurra o país para a direita. O "centrão"
político, esvaziado de qualquer projeto social-democrata, copia a retórica e as
propostas da extrema-direita. Assiste-se ao triunfo da propaganda sobre a
consciência de classe: uma parte significativa da população, desiludida e
desinformada, vota contra os seus próprios interesses, acreditando que partidos
que defendem cortes fiscais para os ricos e a privatização de serviços
essenciais como a saúde e a educação lhes trarão "liberdade".
A ilusão de que as novas direitas "truculentas" e
"patrióticas" são uma alternativa é perigosa. Estas forças são
profundamente cúmplices do modelo que dizem combater. Não querem menos
neoliberalismo, querem-no mais agressivo, mais autoritário, mais excludente e
mais violento.
A Urgência de uma Rutura
A pandemia, a guerra na Ucrânia e o genocídio em curso na
Palestina apenas expuseram o colapso moral das lideranças europeias, cuja
resposta foi sempre a mesma: proteger o capital, abandonar os mais vulneráveis
e alinhar-se acriticamente com os interesses geoestratégicos dos Estados
Unidos.
O que a Europa precisa é de uma rutura profunda. Precisamos
de lutar por uma outra Europa: pacifista, ecologista, solidária e centrada nas
necessidades dos seus povos. Uma Europa que recuse ser uma marioneta na nova
Guerra Fria, que enfrente os abusos das grandes corporações com regulação e
taxação justas, e que volte a colocar a dignidade humana no centro da ação
política.
Para isso, a própria esquerda precisa de uma refundação. Precisa de coragem para romper com os dogmas neoliberais, de clareza para apresentar um projeto alternativo coerente e de capacidade para voltar a conectar-se com as classes trabalhadoras que abandonou. O tempo esgota-se. Ou se reconstrói uma esquerda capaz de enfrentar a barbárie, ou seremos todos arrastados por ela.
Referências e consultas:

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