A Falência Moral Global Face ao Sionismo: Uma Análise Incisiva do Conflito Israeli-Palestiniano e da Cumplicidade Internacional
O que se
desenrola no Médio Oriente, em particular as ações do Estado de Israel em Gaza
e na Cisjordânia, transcende a mera geopolítica; constitui uma mancha indelével
na consciência global, um espelho da mais profunda falência ética e moral do
nosso tempo. Longe de ser um conflito complexo de duas narrativas equivalentes,
esta realidade é, para muitos, a materialização de um Estado que se comporta de
forma segregacionista, racista, colonizadora, criminosa e, inegavelmente,
genocida. Esta perspetiva, alicerçada em valores éticos e morais inegociáveis,
obriga-nos a confrontar não só os atos de Israel, mas a vergonhosa cumplicidade
das elites dirigentes mundiais, dos meios de comunicação hegemónicos e de uma
parcela da própria "populaça".
O Caráter
Segregacionista e Colonizador de Israel: Uma Realidade Indesmentível
A acusação
de que Israel é um estado segregacionista não é uma retórica vazia; é uma
descrição factualmente observável, sustentada por décadas de políticas e ações.
Nos territórios palestinianos ocupados, a Cisjordânia tornou-se o laboratório
de uma colonização ilegal e violenta, que não cessa de expandir. Os colonatos
israelitas, construídos em terras palestinianas e universalmente considerados
ilegais pelo direito internacional e por sucessivas resoluções das Nações
Unidas, são mais do que meras construções; são os pilares de um sistema de
apartheid. Estes colonatos fragmentam o território palestiniano, confinam
populações, criam estradas segregadas e negam a liberdade de movimento,
estabelecendo um regime de dois pesos e duas medidas que evoca memórias
sombrias de regimes discriminatórios passados.
O
historiador Ilan Pappe, com a sua obra seminal "A Limpeza
Étnica da Palestina", desvenda como a própria génese do Estado de Israel,
acompanhada da "Nakba" (catástrofe) de 1948, envolveu a expulsão e
despossessão de centenas de milhares de palestinianos, um processo que ele
argumenta continuar, sob a forma da colonização e da negação do direito ao regresso.
Esta limpeza étnica, longe de ser um evento isolado, configura-se como uma
política estrutural. A prisão de milhares de palestinianos, incluindo inúmeras
crianças, sob "detenção administrativa" – ou seja, sem acusação
formal ou julgamento – é outra faceta desta segregação, uma violação flagrante
dos direitos humanos e do devido processo legal, amplamente documentada por
organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch.
Gaza: Um
Campo de Concentração a Céu Aberto e o Genocídio em Câmara Lenta
Mas é em
Gaza que a crueldade atinge o seu auge, transformando a Faixa num verdadeiro
"campo de concentração" para os palestinianos. Desde 2007, o bloqueio
imposto por Israel, com a conivência do Egito, transformou esta estreita faixa
de terra numa prisão a céu aberto, onde 2,3 milhões de pessoas vivem sob cerco,
com acesso limitado a bens essenciais como água, eletricidade, medicamentos e
alimentos.
As operações
militares de Israel em Gaza – "Chumbo Fundido" (2008-2009),
"Margem Protetora" (2014) e as mais recentes (2023-2024) – não são
apenas retaliações; são campanhas de destruição sistemática que ceifaram a vida
de dezenas de milhares de civis, incluindo um número desproporcional de
mulheres e crianças. A destruição de hospitais, escolas, universidades, mesquitas,
igrejas e infraestruturas vitais não pode ser justificada como
"defesa"; é uma estratégia de aniquilação da vida e da sociedade
palestiniana. Esta devastação, que para muitos, tal como para mim, se assemelha
à que foi infligida aos judeus no Gueto de Varsóvia, não é apenas um crime de
guerra; é um ato genocida, que visa a aniquilação física e cultural de um povo.
O jornalista Breno Altman tem sido uma voz constante na
denúncia da desumanização dos palestinianos, um passo crucial que permite ao
mundo aceitar ou ignorar tais atrocidades.
O Estado
Pirata e a Impunidade Global
Israel não é apenas um colonizador ou um regime segregacionista; é também um "Estado pirata", que viola impunemente o direito internacional. O ataque à Flotilha da Liberdade, em 2010, realizado em águas internacionais e que resultou no assassinato de dez ativistas civis turcos que tentavam levar ajuda humanitária a Gaza, constitui um exemplo flagrante. Esse ato de pirataria estatal e de assassinato foi condenado em todo o mundo, mas as consequências para Israel foram praticamente nulas.
Este Estado pirata, tolerado e apoiado pelas grandes potências, tem mãos livres para praticar todas as atrocidades e ilegalidades que lhe convêm — como mais uma vez se prova com o ato de pirataria cometido contra a Flotilha que, nestes dias, levava ajuda humanitária a Gaza.
A recusa
sistemática de Israel em acatar as inúmeras resoluções das Nações Unidas –
relativas à ocupação, aos colonatos, ao estatuto de Jerusalém, aos direitos dos
palestinianos – demonstra a sua total desconsideração pelo sistema jurídico
internacional e a sua convicção de que opera acima da lei, protegida por
poderes maiores.
As Elites
Dirigentes Mundiais: Cúmplices na Infâmia
A conduta de
Israel seria impossível sem a cumplicidade escandalosa das elites dirigentes
mundiais, com um destaque vergonhoso para as elites europeias e,
consequentemente, portuguesas. A sua "dualidade de critérios" é
manifesta e insultuosa. Enquanto bradam em nome de valores humanistas e da
democracia para condenar umas nações e impor-lhes sanções, fecham os olhos, ou
pior, justificam os crimes de Israel. Esta hipocrisia é percebida até pelas
crianças.
Essa postura
não é apenas uma falha política; é uma falha moral abissal. A submissão a
Israel, movida por medo, compadrio ou por uma rede de interesses globais – que
se assemelha a uma "máfia com tentáculos globais" – descredibiliza
por completo a sua retórica sobre direitos humanos e justiça. A
jornalista Alexandra Lucas Coelho, nas suas reportagens e análises,
tem exposto repetidamente esta duplicidade de padrões, esta capitulação moral
do Ocidente face ao sionismo. O governo português e o seu Presidente da
República, infelizmente, não são exceção; são cúmplices nesta trama, líderes
sem a mínima dignidade moral, que não representam os valores mais elementares
da justiça e da humanidade.
Os Media: A
Vergonha do Jornalismo e a Normalização da Barbárie
Os chamados
"media de referência" mundiais são igualmente cúmplices desta
infâmia, talvez os principais arquitetos da "normalização e aceitação dos
crimes de Israel". A sua cobertura acrítica, a difusão da propaganda
israelita, a descontextualização histórica e o branqueamento descarado dos
factos transformaram o jornalismo numa vergonha. Não se trata da ausência de
bons jornalistas, mas da submissão das grandes corporações mediáticas aos
"grandes interesses globais" que priorizam agendas em detrimento da
verdade e da dignidade humana.
Norman
Finkelstein, nos seus
trabalhos, tem denunciado consistentemente como as narrativas sobre o conflito
são manipuladas e como a crítica a Israel é frequentemente silenciada ou
demonizada, contribuindo para uma perceção pública distorcida. Os media não
informam; moldam a opinião para aceitar o inaceitável, tornando-se ferramentas
de uma desinformação perigosa.
A Falência
Moral da Populaça: O Banquete com o Horror
Finalmente,
não podemos esconder a falência moral de uma parte significativa da
"populaça" que, por ignorância ou, pior, por pura degradação ética,
goza e se regozija nas redes sociais e no dia a dia com os crimes de Israel.
Este regozijo com o assassinato de mulheres, crianças, médicos, socorristas e
jornalistas é de uma abjeção indizível. Não me reconheço nesta gente; não lhes
tenho o mínimo respeito. A alegria perante o sofrimento alheio é o sinal mais
alarmante de uma sociedade em colapso moral, onde a empatia foi substituída
pela indiferença ou pela crueldade.
Um Período
Negro e a Ilusão do Aprendizado Histórico
Vivemos, sem
dúvida, o período mais negro desde a Segunda Guerra Mundial. Um período de
profunda falência moral que, se não for travado, poderá culminar numa tragédia
ainda pior. A história, diz-se, não se repete; mas é uma perigosa ilusão pensar
que a humanidade aprende algo com ela. O que se observa é uma repetição
nauseabunda de padrões de opressão e genocídio, ignorados ou justificados por aqueles
que deveriam ser os seus guardiões morais.

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