A Paz em Gaza: Entre o Desejo e a Desconfiança

A paz para o povo palestiniano seria, sem dúvida, uma das mais nobres e urgentes conquistas do nosso tempo. Depois de tantas décadas de sofrimento, destruição e injustiça, qualquer proposta que traga esperança de um cessar da violência merece ser ouvida e analisada com cuidado. No entanto, não basta proclamar a paz, é preciso compreender quem a propõe, em que condições e com que intenções.

É precisamente aí que reside a minha dúvida. Gostaria sinceramente de acreditar que o plano anunciado por Trump e pelos seus aliados poderá abrir caminho a uma paz verdadeira e duradoura. Mas a experiência histórica e a natureza do poder que domina Israel obrigam a olhar este processo com prudência e ceticismo.

O que assistimos ao longo de décadas não é apenas a política de um governo passageiro, é a execução de um projeto ideológico profundo, intrinsecamente ligado ao sionismo, que tem sustentado a colonização, a expulsão e o genocídio do povo palestiniano desde a fundação do Estado de Israel. Esse projeto, que visa a apropriação integral da Palestina histórica, não foi interrompido nem revisto. Pelo contrário: mantém-se firme, amplamente apoiado pela maioria da sociedade israelita, e continua a traduzir-se em políticas concretas de ocupação, apartheid e extermínio cultural e físico.

Perante essa realidade, é difícil acreditar que este “processo de paz” represente uma verdadeira rutura. Nada indica que Israel esteja disposto a abandonar o caminho que tem seguido: o da força, da imposição e da negação dos direitos fundamentais do povo palestiniano.

Há perguntas essenciais que continuam sem resposta: quem reconstruirá Gaza, depois da destruição total provocada pelas sucessivas ofensivas israelitas? Que papel terão os palestinianos nas decisões sobre o seu próprio futuro? Que garantias reais existem quanto ao seu direito à autodeterminação? E o que acontecerá à Cisjordânia, invadida por milhares de colonos ilegais e cada vez mais fragmentada por muros e checkpoints?

Nenhuma destas questões foi respondida com clareza. E é precisamente essa ausência de compromissos concretos que alimenta a desconfiança.

Paralelamente, é profundamente desconcertante a forma como os media corporativos, que têm sido cúmplices silenciosos através de uma cobertura enviesada, abraçaram e amplificaram este anúncio, louvando e quase endeusando Trump por um acordo cujos contornos desconhecem. Este entusiasmo súbito e unânime cheira a gato escondido com o rabo de fora. O que verdadeiramente pretendem é desviar a atenção que, finalmente, uma parte significativa da opinião pública mundial começou a dar ao genocídio em curso em Gaza. É um exercício de spin mediático para afastar os holofotes dos crimes diários, da brutalidade da ocupação e do sofrimento humano, substituindo-o por uma narrativa confortável de "paz iminente" e "acordos históricos".

É importante dizer: desejar a paz não é sinónimo de ingenuidade. Todos queremos o fim da guerra e do sofrimento, mas uma paz imposta, nascida de um desequilíbrio total de forças e sem justiça, dificilmente será verdadeira. E quando o poder ocupante mantém intacto o seu projeto de dominação, o pessimismo não é uma escolha: é uma leitura lúcida da realidade.

Oxalá este processo viesse, de facto, abrir espaço para uma nova era de coexistência e justiça. Mas enquanto o sionismo continuar a sustentar políticas de colonização e extermínio, e enquanto a comunidade internacional fingir não ver, será difícil acreditar que a paz anunciada não é apenas mais uma manobra para perpetuar o sofrimento palestiniano sob uma nova fachada.

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O linchamento de Mariana Mortágua é o espelho da intolerância

O Eclipse da Humanidade: O Genocídio em Gaza e o Presságio da Nossa Própria Queda

Indignai-vos, porra!