Carta Aberta à Provedora do Telespectador da RTP, Ana Sousa Dias


Exma. Senhora Provedora do Telespectador,
Ana Sousa Dias,


Dirijo-me a V. Ex.ª na qualidade de cidadão e contribuinte, profundamente preocupado com a forma como o serviço público de informação da RTP tem vindo a degradar-se e a afastar-se da sua missão essencial: garantir uma informação rigorosa, independente e plural, ao serviço da sociedade e da democracia.

O serviço público de comunicação social deve basear-se na busca da verdade, na verificação dos factos e na distinção clara entre informação e opinião. Deve defender a imparcialidade e o pluralismo, assegurando uma representação justa da diversidade social, política, cultural e regional do país. Deve atuar com transparência, responsabilidade e respeito pelos direitos humanos, promovendo o interesse público acima de qualquer influência política ou económica. O compromisso da RTP deve ser com a ética, a integridade e o direito dos cidadãos a uma informação livre, credível e acessível a todos.

Infelizmente, Senhora Provedora, na minha modesta mas convicta opinião, a RTP tem falhado gravemente nesse compromisso.
O serviço informativo da televisão pública não é imparcial, não é plural, não é isento e não presta um serviço informativo de qualidade.
Se já existiam falhas sérias sob a anterior direção de informação, há agora sinais preocupantes de que a situação tende a piorar com a nova direção liderada por Vítor Gonçalves.

Apresento alguns exemplos concretos que sustentam esta preocupação:

1. O desequilíbrio opinativo

A RTP vive hoje um desequilíbrio opinativo gritante. A esmagadora maioria das vozes que ouvimos pertence ao centro e, cada vez mais, à direita ou à extrema-direita. As vozes progressistas, de esquerda ou anticapitalistas, praticamente desapareceram.
O afastamento de Raquel Varela, uma das raras presenças que representavam essa perspetiva, agravou ainda mais este empobrecimento democrático.

Este tipo de saneamento político-ideológico não é apenas lamentável — é uma violação direta do dever de pluralismo que a RTP tem enquanto serviço público.

Pior ainda, a RTP mantém comentadores como Rodrigo Moita de Deus, que, num comentário em antena pública, proferiu uma declaração profundamente desumana sobre o massacre em Gaza:

“Com 60 mil mortos em dois milhões, significa que um país com total superioridade aérea não está a atingir indiscriminadamente nem crianças, nem mulheres, nem homens. É uma questão lógica: se fosse para atingir, evidentemente que não é um massacre.”

Este comentário é chocante e moralmente inaceitável.
Relativizar a morte de dezenas de milhares de civis — incluindo milhares de crianças — é uma afronta à dignidade humana e aos princípios fundamentais do jornalismo ético.
A RTP, enquanto televisão pública, não pode ser cúmplice da desumanização nem tratar a barbárie como uma questão de opinião. O pluralismo não pode servir de pretexto para normalizar o inaceitável.

2. A cobertura da guerra na Ucrânia

Desde o início do conflito, a RTP tem reproduzido, de forma quase acrítica, a narrativa de um dos lados.
Nunca apresentou uma contextualização histórica profunda sobre as causas que levaram à guerra, nem relatou de forma equilibrada o que se passa no terreno.
Um serviço público deve defender valores democráticos, sim — mas deve também informar com rigor e isenção.
O jornalismo não pode ser confundido com propaganda.

3. A cobertura do genocídio em Gaza

Ainda mais grave é a forma como a RTP tem tratado a tragédia em Gaza.
A cobertura tem sido cúmplice da narrativa propagandística israelita, difundindo justificações oficiais sem questionamento, omitindo o contexto histórico e silenciando as vozes palestinianas.

Num dos mais graves crimes contra a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial, a RTP tem contribuído — consciente ou inconscientemente — para a normalização da barbárie.
Milhares de crianças, mulheres, jornalistas, médicos e civis assassinados são apresentados como meros “efeitos colaterais”.
A estação insiste em enquadrar o ataque do Hamas de 7 de outubro como justificação para uma “guerra entre iguais”, apagando o facto essencial de que existe um ocupante e um ocupado, um opressor e um oprimido.

A RTP jamais explicou de forma clara o que é o sionismo, nem apresentou com honestidade o contexto histórico da ocupação e da limpeza étnica em curso.
Este apagamento sistemático não é jornalismo — é cumplicidade com a distorção da realidade.

4. O papel do serviço público

Senhora Provedora,
não peço à RTP que me diga o que pensar — peço apenas que me informe com verdade, rigor e pluralismo.
Não peço que as vozes da direita sejam silenciadas — exijo apenas que as vozes da esquerda e das correntes anticapitalistas tenham também espaço e representação.

O serviço público de informação deve estar ao serviço do país, não dos poderes instalados.
Deve servir a verdade, a ética e o interesse público — nunca a conveniência política, económica ou geoestratégica.

Conclusão

A RTP é de todos nós. É financiada por todos nós. E é suposto servir todos nós.
O que se exige, portanto, é simples: isenção, rigor, pluralismo e humanidade.
Nada menos do que isso é aceitável num órgão público de comunicação num Estado democrático.

Apelo, por isso, a V. Ex.ª, Senhora Provedora do Telespectador, que analise com atenção e independência estas preocupações e exija à direção de informação da RTP um cumprimento efetivo da missão de serviço público.

Com os melhores cumprimentos,
e com profundo respeito pelo papel da Provedoria,

José Vaz e Silva
Caldas de São Jorge, 16 de outubro de 2025.

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