Democracia em Queda Livre
Donald Trump, que ainda ocupa o cargo mais poderoso do planeta, publicou um vídeo gerado por inteligência artificial onde aparece a pilotar um avião que lança fezes sobre uma multidão de manifestantes que protestam contra ele. É uma imagem repulsiva — e, no entanto, tristemente coerente com o tempo em que vivemos. A política transformou-se em espetáculo de humilhação, e o poder um palco de provocação.
O episódio seria apenas grotesco se não fosse profundamente
revelador. Mostra até que ponto a fronteira entre o real e o artificial se
dissolveu, e como a violência simbólica substituiu o debate. Quando um líder
mundial recorre a ferramentas de inteligência artificial para insultar os seus
opositores, não estamos perante humor — estamos perante a normalização do
desprezo, a banalização da ofensa e a estetização da mentira.
Mas Trump não é uma exceção: é um sintoma. O mesmo vírus
alastra por todo o Ocidente. Em países onde a democracia parecia consolidada, a
extrema-direita ganha espaço, alimentada por frustrações sociais, desinformação
digital e uma profunda fadiga moral. O discurso do ódio tornou-se rotina, a
manipulação tecnológica tornou-se arma, e a indiferença tornou-se cúmplice.
Estamos a assistir, em direto, à erosão do que restava da
decência pública. E o mais inquietante é que ainda há quem ache tudo isto
“normal”, “engraçado” ou “apenas política”. Não é. É o prenúncio de uma era em
que o grotesco deixa de chocar, e em que o poder volta a falar a linguagem do
insulto e da força.
Ainda não batemos no chão — mas já estamos em queda livre. O
Ocidente, que se orgulhou de ser farol de liberdade e racionalidade, corre o
risco de se tornar uma caricatura de si próprio. E se não travarmos esta
descida agora — com responsabilidade, coragem e pensamento — não será a
inteligência artificial a destruir-nos, mas a nossa própria complacência.

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