Israel e o Mito do “Direito à Defesa”

Desde o 7 de outubro de 2023 que a propaganda sionista, amplificada pelos grandes meios de comunicação e pelas elites políticas ocidentais, repete incessantemente uma frase que se tornou mantra: “Israel tem direito à sua defesa.”
Mas essa frase, apresentada como verdade absoluta, esconde uma realidade histórica, política e moral muito diferente da que é propagada.
Israel não é uma vítima sitiada. É uma potência ocupante. E a sua alegada “autodefesa” tem servido de cortina de fumo para crimes sistemáticos contra um povo ocupado há mais de sete décadas.

A História que o Discurso Oficial Apaga

A falácia da “autodefesa” parte da ideia de que tudo começou com o ataque do Hamas, a 7 de outubro de 2023.
Mas o conflito entre Israel e a Palestina tem raízes profundas e antigas, que remontam à fundação do Estado de Israel, em 1948, o ano da Nakba, a “catástrofe”, quando mais de 700 mil palestinianos foram expulsos das suas terras e aldeias.

Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou a Cisjordânia, Jerusalém Oriental, Gaza, as Colinas de Golã e a Península do Sinai.
Desde então, a ocupação prolonga-se, com assentamentos ilegais a crescerem sobre território palestiniano, em flagrante violação do direito internacional.

O bloqueio imposto a Gaza desde 2007 transformou essa faixa de terra num campo de confinamento a céu aberto, onde dois milhões de pessoas vivem cercadas, sem liberdade de circulação, com eletricidade e água racionadas, e um sistema de saúde em colapso crónico.
Trata-se de punição coletiva, uma violação direta da Quarta Convenção de Genebra.

Direito Internacional e Ocupação

A comunidade internacional tem sido clara.
A Resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU (2016) declarou que os assentamentos israelitas em território palestiniano são uma “flagrante violação do direito internacional”.

Mais recentemente, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), no seu parecer consultivo de julho de 2024, reiterou que a presença e as políticas de Israel nos territórios ocupados violam o direito internacional e configuram um regime de apartheid e colonização.

A Quarta Convenção de Genebra, no seu artigo 49.º, proíbe expressamente que uma potência ocupante transfira parte da sua população para o território ocupado — exatamente o que Israel faz há décadas, promovendo colonatos e expulsando palestinianos das suas terras.

A isto somam-se inúmeros relatórios das Nações Unidas, de organizações humanitárias e de direitos humanos, que documentam assassinatos, detenções arbitrárias, tortura, destruição sistemática de infraestruturas civis e práticas de castigo coletivo.

Exemplos Concretos dos Crimes Israelitas

A Comissão Internacional Independente das Nações Unidas sobre os Territórios Palestinianos Ocupados documentou, em 2024, uma “política concertada” de Israel para destruir o sistema de saúde em Gaza.
Hospitais, clínicas e ambulâncias foram alvos diretos de ataques, e muitos profissionais de saúde foram mortos ou detidos.

Organizações como a UNICEF e a ONU Direitos Humanos (OHCHR) denunciaram dezenas de milhares de violações graves contra crianças — mortes, ferimentos, ataques a escolas e negação de acesso a cuidados médicos.

Relatórios da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch já tinham anteriormente classificado o regime israelita como apartheid, com base na discriminação sistemática entre judeus e palestinianos, nas restrições de movimento, e na negação de direitos políticos e civis.

Os assentamentos ilegais continuam a expandir-se, com o apoio ativo do Estado israelita.
Casas palestinianas são demolidas sob o pretexto de segurança ou falta de licenças (impossíveis de obter), e os colonos armados atacam aldeias palestinianas com impunidade.

Autodefesa ou Colonização?

O direito à defesa é reconhecido a todos os Estados, mas esse direito não é absoluto.
Uma potência ocupante não pode invocar autodefesa contra o povo que ocupa.

A lógica da “defesa de Israel” ignora que a violência israelita não é resposta defensiva, mas agressão. A ocupação, o bloqueio, a repressão, os assassinatos seletivos e os bombardeamentos fazem parte de um sistema contínuo de dominação colonial.

A autodefesa legítima só existe quando se respeitam os princípios da proporcionalidade, da distinção entre civis e combatentes e da necessidade militar, princípios que Israel viola de forma sistemática.

A destruição quase total de Gaza, com dezenas de milhares de mortos civis, o extermínio de famílias inteiras e o impedimento deliberado da ajuda humanitária não são defesa. São crimes de guerra, é genocídio.

O Papel dos Media e das Elites Ocidentais

Grande parte dos meios de comunicação ocidentais tem sido cúmplice desta narrativa, difundindo de forma acrítica as justificações israelitas, omitindo contexto histórico e ignorando as vozes palestinianas.
A cobertura mediática tende a apresentar o conflito como uma guerra entre iguais, apagando o facto essencial de que há um ocupante e um ocupado.

As elites políticas da Europa e dos Estados Unidos reproduzem esse discurso por conveniência geopolítica e submissão à aliança com Israel e com o lobby sionista internacional.
Esta cumplicidade transforma a retórica dos “valores democráticos” em hipocrisia: condena-se a Rússia por crimes de guerra na Ucrânia, mas financia-se Israel enquanto destrói Gaza.

A Mudança de Perceção e a Pressão das Ruas

Durante décadas, a propaganda sionista beneficiou de um consenso quase total entre as elites políticas e mediáticas ocidentais.

O discurso dominante, que retratava Israel como a “única democracia do Médio Oriente”, uma vítima permanente e bastião da civilização ocidental, foi aceite sem contestação pela maioria da opinião pública.

Mas essa imagem não passa de uma falácia cuidadosamente construída: Israel não é uma democracia plena, tal como a África do Sul do apartheid também não o foi. Ambos os regimes partilham a mesma lógica de segregação, discriminação institucional e exclusão de uma parte significativa da população com base na origem étnica e religiosa.

Mas esse consenso começou a ruir, as imagens de Gaza em ruínas, os relatos de crianças mortas, hospitais destruídos, jornalistas assassinados e civis famintos romperam o cerco da propaganda. A realidade tornou-se demasiado evidente para ser negada.

Hoje, uma parte cada vez maior da população mundial recusa a narrativa oficial.
Nas ruas de Londres, Paris, Lisboa, Nova Iorque, Joanesburgo, Madrid ou São Paulo, centenas de milhares de pessoas têm saído a protestar, exigindo um cessar-fogo, o fim da ocupação e a responsabilização de Israel por crimes de guerra. Esta mobilização global, espontânea e persistente, está a abalar a legitimidade moral dos governos cúmplices. Incluindo o governo português.

As elites dirigentes — que continuam a apoiar Israel por cálculo geopolítico, dependência económica ou subserviência diplomática, enfrentam agora uma pressão sem precedentes. A indignação das ruas expõe a contradição entre o discurso dos “valores democráticos” e a prática cúmplice de genocídio.

A linguagem de direitos humanos, outrora instrumento de poder, volta-se agora contra os seus próprios porta-vozes. Pela primeira vez em décadas, a questão palestiniana deixou de ser periférica ou tabu nos espaços públicos ocidentais.

O debate sobre o apartheid israelita entrou nas universidades, nas assembleias, nas redações e nas plataformas digitais e já não pode ser silenciado.

Cada vez mais pessoas, informadas pelas redes sociais, pelo jornalismo independente e por académicos críticos, reconhecem Israel pelo que de facto é: uma potência ocupante, colonial e racista, cuja política de dominação nega sistematicamente os direitos fundamentais do povo palestiniano.

Este despertar das consciências não é apenas simbólico, é político.
A pressão popular tem forçado parlamentos, governos e instituições internacionais a rever o seu discurso e a considerar medidas concretas, como o reconhecimento do Estado da Palestina, sanções e pedidos de responsabilização judicial no Tribunal Penal Internacional. Mesmo os governos que continuam alinhados com Telavive já não o fazem sem contestação interna.

A perceção pública está a mudar, e com ela, a paisagem moral e política do Ocidente.
O silêncio cúmplice deixou de ser cómodo. E é justamente esse despertar que Israel e os seus aliados mais temem: a perda da narrativa, do controlo simbólico sobre o que é “legítimo”, “defensável” e “aceitável”.

Vozes que Desmontam a Propaganda

Historiadores, jornalistas e académicos israelitas e internacionais têm vindo a denunciar esta manipulação da narrativa.

Ilan Pappé, no seu trabalho “A Limpeza Étnica da Palestina”, demonstra como a fundação de Israel implicou um plano deliberado de expulsão dos palestinianos — um processo que continua sob novas formas.

Norman Finkelstein, em diversas intervenções, mostra como as ofensivas israelitas contra Gaza foram desproporcionais e deliberadamente cruéis, violando todas as normas de guerra.

Alexandra Lucas Coelho, jornalista portuguesa, tem denunciado de forma consistente o apartheid e a manipulação mediática sobre a Palestina, lembrando que o “direito à defesa” não pode justificar o massacre de um povo.

Ariel Umpierrez e Breno Altman também têm desmontado o discurso hegemónico, sublinhando que o sionismo não é uma ideologia de libertação, mas de dominação e exclusão.

Conclusão: A Verdade por Trás da Frase Feita

A afirmação “Israel tem direito à sua defesa” tornou-se uma arma retórica.
Usa-se para silenciar críticas, inverter papéis e legitimar atrocidades.

Mas um Estado que ocupa, coloniza e oprime não se está a defender, está a atacar.
Um exército que destrói hospitais, assassina civis e bloqueia ajuda humanitária não se está a proteger, está a cometer crimes de guerra.

Reconhecer isso não é negar o sofrimento de civis israelitas.
É recusar a manipulação que transforma vítimas em opressores e o opressor em mártir.

A justiça e a paz só serão possíveis quando o mundo abandonar a hipocrisia e reconhecer o que há muito é evidente: Israel não está a defender-se. Está a perpetuar uma ocupação colonial!



Referências

  • Ilan Pappé — Israel vs. Palestina – a Mais Breve História do Conflito (Ideias de Ler, 2025).
  • Norman Finkelstein — artigos na internet e vídeos do YouTube.
  • Alexandra Lucas Coelho — artigos sobre Palestina em Público, Expresso e Gaza Está em Toda a Parte (Editorial Caminho, 2025).
  • Ariel Umpierrez — artigos na internet e vídeos no seu canal no YouTube.
  • Breno Altman — análises em Ópera Mundi.
  • Relatório da ONU (2024) — Comissão Internacional Independente sobre os Territórios Palestinianos Ocupados.
  • Tribunal Internacional de Justiça (2024) — Parecer Consultivo sobre os Assentamentos e Ocupação Israelita.
  • Resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU (2016).
  • Amnistia Internacional — Israel’s Apartheid Against Palestinians: Cruel System of Domination and Crime Against Humanity (2022).
  • Human Rights Watch — A Threshold Crossed: Israeli Authorities and the Crimes of Apartheid and Persecution (2021).
  • Arlene Clemesha — artigos na internet e vídeos no YouTube.

 

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