A Era do Neoliberalismo Totalitário e a Ascensão das Direitas Neofascistas
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O neoliberalismo não pertence ao passado. É o sistema hegemónico do presente — um regime totalitário de mercado, como sublinha Marilena Chauí, que se impõe sobre as sociedades contemporâneas através de uma combinação de violência económica, simbólica e cultural. Sob o disfarce da liberdade individual e da eficiência económica, consolidou-se uma forma de dominação que substitui a democracia pelo consumo, a cidadania pela competição e a solidariedade pela culpa.
Desde os anos 1980, com Thatcher e Reagan, o neoliberalismo tornou-se o dogma estrutural do Ocidente. Mas o seu poder não reside apenas nas instituições: reside sobretudo na captura das consciências. George Monbiot descreve-o como a “ideologia invisível” do nosso tempo — uma fé naturalizada que molda a própria forma de pensar e perceber o mundo.
O totalitarismo neoliberal e a fraude da liberdade
A narrativa neoliberal afirma que a liberdade só floresce quando o Estado recua e o mercado domina. Porém, esta suposta libertação é, na realidade, uma forma profundamente moderna de totalitarismo. O neoliberalismo não elimina o Estado: submete-o ao capital e converte-o num gestor dos interesses financeiros e empresariais.
Privatizações, desregulação, austeridade e benefícios fiscais para as elites são apresentados como verdades naturais e indiscutíveis. Como demonstra David Harvey, o verdadeiro objetivo sempre foi a “restauração do poder de classe” — a recomposição de uma oligarquia económica sob a retórica da eficiência.
O seu triunfo depende tanto da violência material quanto da produção ideológica que o legitima. Naomi Klein revelou como as crises — económicas, políticas, sociais ou ambientais — são manipuladas como choques que justificam novas ofensivas do mercado. Cada colapso reforça o sistema, que se apresenta como a única solução para os problemas que ele próprio cria.
Propaganda totalitária e captura dos media
A arquitetura ideológica do neoliberalismo é sustentada por uma vasta rede de think tanks, fundações e meios de comunicação financiados por grandes interesses económicos. Como observa Ziegler, trata-se de uma “mentira organizada” posta ao serviço da injustiça global. Mas o seu grande aparelho propagandístico é o media mainstream, convertido no instrumento cultural central desta ordem totalitária.
Os grandes meios de comunicação não apenas informam: produzem consenso, moldam mentalidades, reduzem a política ao mercado e fazem da competição o único horizonte possível. Como explica Mark Fisher, o neoliberalismo atingiu tal grau de hegemonia que se torna mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
O jornalismo que, noutros tempos, sustentou a democracia, tornou-se agora guardião da ortodoxia neoliberal. Silencia alternativas, normaliza injustiças, transforma desigualdade em mérito e sofrimento em responsabilidade individual. O totalitarismo neoliberal atua, assim, não pela repressão aberta, mas pela colonização cognitiva.
Da desdemocratização ao neofascismo
O retrocesso civilizacional em curso não é uma aberração, mas o resultado lógico do neoliberalismo enquanto regime totalitário. Como argumenta Wendy Brown, ao reduzir o cidadão à figura do consumidor e ao dissolver o bem comum, o neoliberalismo desdemocratiza a sociedade e cria as condições perfectas para a emergência de novos autoritarismos.
A precarização generalizada, a destruição do Estado social, a individualização da culpa e o desmantelamento dos laços comunitários geram medo, ressentimento e frustração — matéria-prima dos movimentos neofascistas. Estes apresentam-se como insurgentes contra o sistema, mas são, na verdade, seu braço político degenerado: preservam todas as bases económicas neoliberais enquanto canalizam a raiva dos marginalizados contra os mais vulneráveis.
O neofascismo neoliberal atual combina autoritarismo político com fundamentalismo de mercado, produzindo uma nova forma de barbárie: uma ordem que exige obediência, naturaliza a desigualdade e transforma o ódio em identidade coletiva.
O colapso moral e a urgência de um novo paradigma
Como denuncia Jean Ziegler, vivemos no “império da vergonha”: um sistema em que a desigualdade deixa de envergonhar quem a causa e passa a humilhar quem a sofre. A corrupção, o cinismo e o individualismo extremos não são anomalias — são engrenagens essenciais do totalitarismo neoliberal.
As fundações éticas e políticas que sustentaram o Estado social do pós-guerra foram corroídas. O bem comum desapareceu do horizonte. A ideia de humanidade foi fragmentada pela lógica mercantil de competição permanente. Neste vazio moral, o neofascismo floresce como solução perversa, oferecendo falsa ordem onde o neoliberalismo semeou destruição.
Romper este ciclo exige mais do que reformar o sistema: exige um novo imaginário ético, cultural e político. Como defende Boaventura de Sousa Santos, só uma transformação profunda — baseada na justiça social, ecológica e na recuperação da solidariedade — pode substituir a lógica predatória do mercado pela lógica da vida.
O combate ao neofascismo começa, inevitavelmente, pela superação do totalitarismo neoliberal. Enquanto este permanecer dominante, a barbárie continuará a germinar — até se tornar norma.
O neoliberalismo foi o ovo; o neofascismo, o monstro que dele eclodiu.
Outras referências
- George
Monbiot, The Secret History of Neoliberalism.
- Naomi
Klein. A Doutrina do Choque. A Ascensão do Capitalismo de Desastre.
- Dardot,
Pierre & Laval, Christian. A Nova Razão do Mundo: Ensaio sobre
a Sociedade Neoliberal. Boitempo.
- Michel
Chossudovsky. A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial.
Campo das Letras.
- Jean
Ziegler. O Império da Vergonha. Difel.
- Noam
Chomsky. Requiem for the American Dream. Seven Stories Press.
- Moniz
Bandeira, Luiz Alberto. A Fórmula para o Caos: A Democracia
Invertida, a Nova Ordem Mundial e a Desintegração da América Latina.
Civilização Brasileira.
- Amin
Maalouf. um mundo sem regras. Difel.
- George
Monbiot , Peter Hutchison. A Doutrina Invisível: A História Secreta do
Neoliberalismo

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