O Período Mais Negro Desde a II Guerra: A Falência Moral do Ocidente face à Palestina
E, ainda assim, as
elites dirigentes mundiais, sobretudo na Europa, incluindo Portugal, não apenas
fecham os olhos, como são cúmplices ativos dessa realidade. Os media de
referência reproduzem a propaganda oficial israelita, descontextualizam a
história e silenciam os crimes. E parte da sociedade civil, longe de se
indignar, goza com o sofrimento de um povo inteiro.
Este é, sem dúvida,
o período mais negro desde a II Guerra Mundial.
Colonização e apartheid: um projeto estrutural
O historiador israelita Ilan Pappé, em A Limpeza
Étnica da Palestina, documenta que a fundação de Israel em 1948 foi
acompanhada de um plano sistemático de expulsão em massa dos palestinianos,
conhecido como Nakba. Pappé escreve: “A expulsão não foi um acidente
ou um efeito colateral da guerra. Foi o seu objetivo central”.
Setenta e cinco anos depois, a lógica é a mesma. Colonatos
ilegais expandem-se pela Cisjordânia, desalojando famílias palestinianas e
confiscando terras férteis. A ONU aprovou dezenas de resoluções exigindo o fim
destas práticas, todas ignoradas por Israel.
Em 2021, a Human Rights Watch declarou que Israel
pratica o crime de apartheid, afirmando: “As autoridades israelitas
têm privilegiado sistematicamente os israelitas judeus enquanto reprimem os
palestinianos. Este sistema constitui apartheid e perseguição”. A Amnistia
Internacional, em 2022, chegou à mesma conclusão: “Israel impõe um
regime de opressão e dominação aos palestinianos, tanto dentro de Israel como
nos territórios ocupados. Este regime equivale a apartheid”.
Gaza: a punição coletiva de um povo
Desde 2007, mais de dois milhões de pessoas vivem encurraladas
na Faixa de Gaza, submetidas a um bloqueio que restringe a entrada de bens
essenciais e impede a livre circulação. A ONU já declarou a região “inabitável”.
Cada ofensiva militar de Israel transforma-se em tragédia
humanitária. Casas, escolas, hospitais e até comboios de ajuda humanitária são
alvos de bombardeamentos. Jornalistas, médicos e socorristas são mortos.
Crianças são enterradas sob escombros.
O académico judeu-americano Norman Finkelstein, filho
de sobreviventes do Holocausto, descreve Gaza como “o campo de concentração
mais longo da história contemporânea”. Num dos seus estudos, escreve: “Não
se trata de uma guerra. Trata-se de massacres recorrentes contra uma população
indefesa e faminta”.
A imagem histórica é inevitável: Gaza como um gueto sitiado,
um eco sombrio do gueto de Varsóvia, onde os nazis aprisionaram e
deixaram morrer de fome milhares de judeus.
Crimes esquecidos: da flotilha à perseguição de crianças
A lista de crimes cometidos por Israel é extensa. Em 2010,
comandos israelitas atacaram em águas internacionais a Flotilha da Liberdade,
que levava ajuda humanitária para Gaza. Dez ativistas foram mortos. A ONU
classificou o ataque como ilegal. Nenhum responsável foi punido.
Todos os anos, milhares de palestinianos são presos sem
acusação formal, incluindo centenas de crianças. A organização Defense
for Children International já denunciou repetidamente que Israel pratica prisões
arbitrárias e tortura de menores.
Em maio de 2022, a jornalista palestiniana Shireen Abu
Akleh, da Al Jazeera, foi assassinada com um tiro na cabeça enquanto cobria
uma operação israelita na Cisjordânia. Testemunhas e investigações
independentes confirmaram que foi morta por forças israelitas. Ainda assim, o
caso foi rapidamente abafado pelos media ocidentais.
A cumplicidade das elites dirigentes
Face a tudo isto, as elites dirigentes mundiais permanecem
cúmplices. A União Europeia mantém acordos económicos privilegiados com Israel,
que alimentam o regime de colonização. Vários países europeus, incluindo
Portugal, abstêm-se ou votam contra resoluções da ONU que condenam a ocupação e
pedem proteção para os palestinianos.
O jornalista brasileiro Breno Altman resumiu bem esta
duplicidade: “A indulgência com Israel é a face mais obscena da hipocrisia
ocidental em matéria de direitos humanos”.
Em Portugal, governos sucessivos e Presidentes da República
alinham com essa cumplicidade. Discursam sobre valores humanistas, mas calam-se
perante a opressão dos palestinianos. Condenam uns países em nome da democracia
e do direito internacional, mas legitimam um Estado que viola todas as normas
básicas da convivência internacional. É a falência moral e sem perdão e a total
descredibilização dos dirigentes.
O papel vergonhoso dos media
Se os governos calam, os media branqueiam. O enquadramento
dominante fala em “conflito” ou “choque” entre dois lados iguais. Como escreveu
Alexandra Lucas Coelho, jornalista portuguesa que esteve repetidamente
em Gaza: “A narrativa dominante no Ocidente descontextualiza a ocupação e
transforma o colonizado em agressor”.
É uma escolha deliberada de linguagem: colonatos ilegais
tornam-se “assentamentos”; massacres de civis transformam-se em “operações
militares”; ataques a jornalistas são “incidentes”. Assim, a opinião pública é
anestesiada e ensinada a aceitar a violência como inevitável.
O ataque à flotilha em 2010, a morte de Shireen Abu Akleh ou
os bombardeamentos de escolas da ONU caem rapidamente no esquecimento
noticioso. O jornalismo que deveria denunciar tornou-se cúmplice pela omissão.
A falência moral da sociedade
Mais chocante ainda é a reação de parte da sociedade civil.
Nas redes sociais, multiplicam-se comentários aplaudindo o assassinato de
palestinianos. Conversas de café ecoam a propaganda oficial, celebrando o
sofrimento de mulheres e crianças.
O investigador Ariel Umpierrez explica esta
desumanização: “O sionismo construiu uma narrativa global que legitima a
violência colonial e desumaniza o povo palestiniano”. Essa narrativa foi
absorvida e reproduzida, ao ponto de muitos passarem a ver palestinianos não
como seres humanos, mas como alvos legítimos.
Aplaudir massacres é sinal de decadência moral. É prova de
que parte da sociedade perdeu qualquer sentido de compaixão e dignidade humana.
Conclusão: a repetição dos erros da história
A História não se repete, mas rima. Acreditar que a
humanidade aprendeu com a II Guerra Mundial é uma ilusão perigosa. Hoje,
assistimos novamente à normalização do inominável.
O gueto de Varsóvia ecoa em Gaza. A Nakba prolonga-se nos
colonatos na Cisjordânia. O silêncio das elites e o branqueamento dos media
garantem a impunidade. E a cumplicidade de parte da sociedade confirma a
falência moral coletiva.
Como escreveu Ilan Pappé: “A questão não é se o
mundo sabe, mas sim quanto tempo continuará a fingir que não sabe”.
E é justamente esse fingimento que poderá conduzir a
humanidade a uma tragédia ainda maior do que a vivida no século XX.

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