A Era Do Desencanto



Onde param aqueles que, perante o desabar civilizacional que testemunhamos, permanecem quase em silêncio, como se o espanto tivesse sido substituído pela resignação? Onde estiveram, nos últimos dois anos, durante o genocídio do povo palestiniano, quando a barbárie se mostrou em direto diante do mundo, e a maioria manteve um silêncio sepulcral? Terão viajado para Marte? Ou terão simplesmente desistido?

Onde estão os músicos que, há poucas décadas, usavam a sua arte como forma de denúncia, de solidariedade e de esperança? Onde estão os intelectuais que outrora empunharam a palavra como arma contra a injustiça, que enfrentaram regimes, denunciaram tiranias e defenderam causas progressistas? Onde estão agora, quando a ignomínia volta a erguer-se sob novas máscaras, e o retrocesso moral e político se impõe como norma?

Onde estão os movimentos populares e sociais que um dia se levantaram por causas justas — como a autodeterminação do povo timorense, por exemplo —, mas que hoje parecem dissolvidos na indiferença, incapazes de reagir diante do maior crime contra a humanidade desde a Segunda Guerra? Onde estão os pedagogos, os sociólogos, os pensadores que, diante da falência moral e ética de uma parte expressiva da sociedade, optam por não se pronunciar, ou refugiam-se num conforto académico estéril?

E os ecologistas progressistas — onde estão? Aqueles que um dia propuseram grandes mudanças civilizacionais, conscientes de que o colapso ambiental não se combate com “receitinhas caseiras” ou gestos individuais de consumo ético, mas sim com uma transformação estrutural do sistema económico. Sabem que a catástrofe ecológica é filha direta do totalitarismo neoliberal e do seu modelo hiperconsumista e predatório, mas raramente o dizem. Em vez disso, oferecem soluções paliativas que apenas servem para lavar consciências, enquanto o planeta arde.

E os escritores? Onde estão os que, além do mérito literário, assumiam o compromisso da intervenção, da palavra transformadora, da literatura que é também gesto político e moral? Hoje, a arte parece ter abdicado da sua dimensão pública, confinada ao mercado e a métricas da visibilidade?!

Confesso: nunca acreditei plenamente na humanidade — enquanto abstração coletiva, claro, pois há seres humanos extraordinários. Mas nunca imaginei assistir, em vida, a um retrocesso civilizacional tão vasto, que atravessa todos os setores sociais e parece corroer os alicerces éticos da modernidade.

Vivemos uma hecatombe moral e cultural que nem os mais pessimistas ousariam prever. O pior é que tudo indica que ainda não tocámos o fundo: a indiferença cresce, o cinismo alastra, e a esperança rareia.

Não escrevo isto como acusação, mas como desabafo. Como quem procura, no meio do desencanto, ainda um resquício de sentido. Talvez o problema não seja apenas onde estão os progressistas, mas o que se passou connosco, com todos nós que um dia acreditámos que o mundo podia ser outro.

E, no entanto, apesar de tudo, há uma voz dentro de mim que insiste: é preciso continuar a perguntar. Porque talvez, ao perguntar, estejamos ainda a resistir.

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