O pacote laboral do governo Montenegro: um retrocesso civilizacional
O governo de Luís Montenegro prepara um pacote laboral que representa um ataque brutal aos direitos dos trabalhadores e um claro retrocesso civilizacional. Sob o disfarce de “modernização”, o executivo promove uma agenda profundamente neoliberal e reacionária, que ameaça destruir o que resta do contrato social construído no pós-guerra.
O aumento do horário de trabalho até 50 horas semanais, a
fragilização do direito à greve, a redução da importância da antiguidade e a
facilitação dos despedimentos não são medidas técnicas, são opções ideológicas.
Elas procuram submeter a vida ao império do mercado e transformar o trabalhador
num recurso descartável, disponível 24 horas por dia ao serviço do lucro.
Como denunciam Raquel Varela e António Garcia Pereira,
trata-se de um projeto político que visa desmantelar o Estado social e
enfraquecer qualquer forma de resistência coletiva. O governo de Montenegro,
alinhado com as teses mais duras da direita europeia, mostra-se determinado em
converter Portugal num país de trabalhadores exaustos, precários e silenciados,
um país onde o lucro se sobrepõe à dignidade humana e à justiça social.
Ainda mais inquietante é o silêncio que envolve esta ofensiva.
A reação popular é mínima. Os sindicatos lutam isolados. E grande parte dos
trabalhadores, capturados pelas narrativas neoliberais difundidas pelos grandes
meios de comunicação, acabam por agir contra os seus próprios interesses.
Aceitam a perda de direitos como se fosse inevitável, ou até desejável, sem
perceber que estão a abdicar das conquistas históricas que lhes garantiram
descanso, estabilidade e dignidade.
Esta passividade coletiva é o sinal mais alarmante do
nosso tempo. Uma sociedade cativa, anestesiada e resignada à exploração abre
caminho ao autoritarismo económico e político. O que o governo de Montenegro
prepara não é uma reforma, é uma regressão profunda, um ataque à própria ideia
de cidadania social.
Se não houver resistência organizada e consciência
coletiva, Portugal corre o risco de se tornar o exemplo perfeito de como um
povo pode perder, quase em silêncio, as conquistas que tantas gerações lutaram
para alcançar.
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