Uma Europa Distópica Cada Vez Mais Próxima do Totalitarismo Sancionatório
A União Europeia tem vindo a construir, sob o pretexto da defesa da democracia, da segurança e dos direitos humanos, um mecanismo sancionatório cada vez mais vasto, opaco e perigosamente arbitrário. Inicialmente apresentado como um instrumento excecional contra Estados considerados autoritários ou violadores do direito internacional, este sistema rapidamente se expandiu para atingir indivíduos concretos, muitas vezes sem acusação formal, sem contraditório, sem julgamento e sem qualquer decisão judicial independente.
Hoje,
cidadãos europeus e não europeus podem ser sancionados por alegadas ligações
políticas, ideológicas ou comunicacionais a regimes ou narrativas consideradas
hostis à União Europeia. O simples ato de opinar, analisar, questionar ou
divergir, mesmo com base em fontes públicas, ocidentais ou oficiais, passou a
ser suficiente para justificar medidas que destroem por completo a vida civil
de uma pessoa.
Congelamento
de contas bancárias, proibição de viajar, perda de emprego, exclusão social e
profissional, vigilância constante e isolamento psicológico tornaram-se
punições administrativas aplicadas sem prova pública, sem direito de defesa
efetivo e sem presunção de inocência. Trata-se de um castigo total, típico de
regimes autoritários, mas agora normalizado no espaço europeu.
O Delito
de Opinião como Novo Crime Político
O aspeto mais
alarmante deste processo não é apenas a existência de sanções, mas o seu
alargamento ao chamado “delito de opinião”. Sob rótulos vagos como
“desinformação”, “propaganda”, “narrativas hostis” ou “influência maligna”, a
União Europeia passa a atuar como árbitro da verdade política, definindo quais
opiniões são aceitáveis e quais merecem punição.
Não se exige
prova de dano concreto, nem ligação direta a crimes materiais. Basta que uma
análise, um livro, um artigo ou uma intervenção pública contrarie a narrativa
oficial dominante para que o autor seja colocado sob suspeita. A fronteira
entre crítica legítima e “ameaça híbrida” torna-se deliberadamente ambígua,
permitindo um uso discricionário do poder sancionatório.
Alguns casos
recentes ilustram esta tendência, ainda que não devam ser tomados como exceções
isoladas, mas como sintomas de um padrão. Analistas como Jacques Baud,
ex-oficial de serviços de informação suíços, foram alvo de sanções ou
tentativas de ostracização por apresentarem leituras críticas da guerra na
Ucrânia, baseadas em análises estratégicas e fontes abertas. Jornalistas como
Hüseyin Doğru foram sancionados por alegada “propagação de narrativas hostis”,
em grande medida devido à sua cobertura crítica da política externa europeia e
do Médio Oriente. Nathalie Yamb é uma ativista política, empresária e
especialista em comunicação suíço-camaronesa. Ela foi sancionada pela União
Europeia em 26 de junho de 2025, no âmbito do regime de sanções contra as
ameaças híbridas russas e é acusada de apoiar a Federação Russa por meio de
manipulação de informação e interferência.
Não se trata
aqui de concordar com essas figuras, nem de validar as suas posições, discursos
ou conclusões. Cada autor é responsável pelas suas ideias e deve responder por
elas no espaço do debate público. O ponto central é outro: numa democracia,
opiniões, mesmo controversas, erradas ou desconfortáveis, não podem ser
tratadas como crimes políticos, nem punidas administrativamente sem processo
judicial, prova de culpa e direito pleno de defesa.
Quando a
dissidência intelectual passa a ser enquadrada como ameaça à segurança, a
diversidade de pensamento — pilar essencial da democracia liberal —
transforma-se num risco a eliminar.
A Erosão
do Estado de Direito
Este modelo
sancionatório representa uma rutura grave com princípios fundamentais do Estado
de direito:
- presunção de inocência;
- direito a um julgamento justo;
- direito de defesa;
- proporcionalidade da pena;
- separação de poderes.
Na prática,
burocratas não eleitos assumem funções que pertencem historicamente aos
tribunais, aplicando sanções com efeitos devastadores sem controlo judicial
prévio. O indivíduo sancionado enfrenta um labirinto jurídico quase impossível
de ultrapassar, enquanto a sanção produz efeitos imediatos, duradouros e,
muitas vezes, irreversíveis. O que se constrói, assim, não é uma democracia
mais forte, mas um regime de exceção permanente, onde os direitos deixam de ser
universais e passam a ser condicionais à conformidade política.
A Falta de
Legitimidade Moral da União Europeia
A gravidade
deste processo torna-se ainda mais evidente quando se analisa quem sanciona e
em nome de quê. A União Europeia apresenta-se como guardiã dos direitos humanos
e da ordem internacional, mas essa pretensão colide frontalmente com a sua
prática concreta em alguns dos mais graves crimes contemporâneos.
A
cumplicidade ativa, política, diplomática, económica e militar, das
instituições europeias e da maioria dos Estados europeus com o regime
israelita, apesar das provas abundantes de crimes de guerra, crimes contra a
humanidade e atos de caráter genocida contra o povo palestiniano, retira à
Europa qualquer autoridade moral para se apresentar como juíza da legitimidade
alheia.
Apoiar,
financiar, armar e proteger diplomaticamente um Estado que bombardeia civis,
impõe bloqueios desumanos, destrói infraestruturas vitais e pratica punições
coletivas sistemáticas não é um erro marginal: é uma escolha política
consciente. Uma escolha que mancha irremediavelmente quem a faz.
Não é
possível, sem um grau extremo de hipocrisia, sancionar indivíduos por palavras,
análises ou opiniões, enquanto se compactua com crimes massivos cometidos à luz
do dia. O sangue que mancha essas políticas retira toda e qualquer legitimidade
ética a quem se arroga o direito de punir outros em nome dos “valores
europeus”. Uma autoridade que protege criminosos de guerra não pode ser árbitro
da verdade, da justiça ou da moralidade.
O Silêncio
Cúmplice e o Perigo da Normalização
Talvez o
aspeto mais trágico deste processo seja a indiferença generalizada. Enquanto as
sanções atingem “outros”, figuras distantes, estrangeiras ou politicamente
incómodas, muitos optam pelo silêncio, convencidos de que nunca serão afetados.
Mas a história ensina precisamente o contrário: todo o autoritarismo começa
pela perseguição dos que pensam diferente.
Quando a
sociedade aceita que alguém seja punido sem culpa formada, abre-se um
precedente perigoso e cumulativo. Hoje são analistas, jornalistas ou ativistas;
amanhã serão professores, investigadores, artistas ou cidadãos comuns.
A indiferença
perante a injustiça alheia é sempre o prefácio da própria vulnerabilidade.
Quando a repressão se normaliza, já não haverá autoridade moral, nem justiça,
nem ética capazes de a deter. Teremos sido nós, pelo silêncio e pela
conformidade, a entregar-lhe as chaves.
Conclusão
A Europa
encontra-se num ponto crítico. Ou reafirma os valores que proclama — liberdade
de expressão, pluralismo, Estado de direito — ou desliza, lentamente, mas de
forma consistente, para um totalitarismo punitivo de rosto tecnocrático, onde a
repressão não se faz com tanques, mas com sanções administrativas, listas
negras e exclusão social.
Defender a
democracia não é silenciar vozes incómodas.

Comentários
Enviar um comentário