E Quando Bater à Nossa Porta?
O crime cometido pelo império contra a Venezuela é
inqualificável. Não admite relativizações, rodeios nem exercícios cínicos de
contextualização seletiva. E, no entanto, foi precisamente isso que assistimos:
uma encenação obscena de cegueira voluntária, manipulação descarada e
servilismo rasteiro por parte dos media mainstream e das elites dirigentes
europeias, incluindo o governo português. Um espetáculo de degradação moral que
expõe, sem margem para dúvidas, a falência ética, política e civilizacional da
Europa institucional.
Independentemente da situação política, económica ou
institucional interna da Venezuela, que não serve nem pode servir de pretexto
para agressões externas, o que está em causa é a cumplicidade ativa da Europa
com os crimes do império estadunidense. Em Lisboa e em Bruxelas, governantes,
eurocratas e decisores políticos alinham obedientemente com narrativas impostas
por Washington, traindo o direito internacional, os princípios mais básicos da
soberania dos povos e qualquer noção minimamente coerente de democracia. Já não
se trata de cobardia diplomática: trata-se de submissão consciente, estrutural
e deliberada.
Repugna o grau de desfaçatez com que estas elites
classificam crimes como “medidas necessárias”, “defesa da democracia” ou
“intervenções humanitárias”. Causa asco a hipocrisia sistemática de quem brada
valores quando sanciona países considerados inimigos, mas os enterra no
silêncio cúmplice quando os crimes são cometidos pelo império ou pelos seus
aliados estratégicos. Esta duplicidade moral não é um acidente nem uma exceção,
é um método. Um método de dominação, de propaganda e de disciplinamento
político.
Essa mesma lógica criminosa manifesta-se de forma ainda mais
brutal e obscena na Palestina. O genocídio em curso contra o povo palestiniano
em Gaza e os crimes na Cisjordânia, levado a cabo pelo sionismo, não seria
possível sem o apoio político, diplomático, financeiro e militar direto do
império estadunidense. Washington é corresponsável por cada massacre, por cada
bombardeamento de civis, por cada criança mutilada, por cada hospital
destruído, por cada violação sistemática do direito internacional humanitário.
Não se trata de cumplicidade distante: trata-se de patrocínio ativo do crime.
A Europa, mais uma vez, escolhe o papel mais vergonhoso.
Cala-se, relativiza, justifica o injustificável ou, no máximo, emite
comunicados vazios enquanto continua a cooperar militar, económica e
diplomaticamente com o regime sionista. As mesmas instituições que se dizem
defensoras dos direitos humanos recusam-se a nomear o genocídio, bloqueiam
sanções, criminalizam a solidariedade com a Palestina e perseguem vozes
dissidentes. Esta postura não é neutralidade, é cumplicidade criminosa.
Os media mainstream são peças centrais desta engrenagem de
desumanização. Normalizam o massacre de palestinianos, ocultam o contexto
colonial e de ocupação, invertem a relação entre opressor e oprimido e
transformam vítimas em culpados. Silenciam crimes quando cometidos pelo
sionismo, relativizam o genocídio, manipulam a linguagem e reproduzem, sem
qualquer espírito crítico, a propaganda do império e dos seus aliados. O seu
papel já não é informar: é legitimar a barbárie.
Mas o servilismo e a conivência têm sempre um preço — e a
história demonstra-o sem exceções. Hoje, estas lideranças europeias, medíocres
e politicamente acéfalas, fecham os olhos aos crimes cometidos contra a
Venezuela e ao genocídio do povo palestiniano. Amanhã, o que farão se o império
decidir avançar sobre a Colômbia, o México, o Brasil ou mesmo sobre a
Gronelândia? Continuarão a assobiar para o ar, fingindo neutralidade, enquanto
a ordem internacional é rasgada e a soberania dos povos esmagada?
É evidente — e importa dizê-lo com clareza — que ninguém no
seu perfeito juízo defende ou sugere qualquer intervenção militar contra a
maior potência que a humanidade alguma vez conheceu. Essa caricatura serve
apenas para silenciar o debate. Mas entre a submissão total e a guerra existe
um vasto campo de ação política: a diplomacia firme, a pressão económica, o
isolamento político, a denúncia consistente em instâncias internacionais, a
recusa de alinhamentos automáticos, a afirmação de uma política externa
autónoma e coerente com os valores que a Europa proclama, mas já não pratica.
Ao abdicar até dessas ferramentas mínimas, a Europa abdica
da sua própria existência política. Torna-se irrelevante, cúmplice e
descartável. Um espaço geográfico governado por elites que confundem prudência
com cobardia e realismo com obediência.
Esta traição sistemática tem consequências inevitáveis.
Quando as instituições mentem, quando os media manipulam, quando o direito
internacional é aplicado de forma seletiva e quando a política se reduz a
vassalagem imperial, o terreno fica fértil para o crescimento de soluções
demagógicas, autoritárias e potencialmente criminosas. As mesmas elites que
hoje destroem a democracia em nome de uma falsa estabilidade estão a preparar o
colapso que amanhã dirão não compreender.
Ou os povos europeus rompem com esta farsa, recusam o
servilismo, exigem soberania política, ética e informativa, ou acordarão numa
Europa irreconhecível: mais pobre, mais autoritária, mais violenta e
completamente submissa a interesses externos. Não há neutralidade possível
perante crimes e genocídios. O silêncio é cumplicidade. E a história nunca absolve
cúmplices.

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