De Derrota em Derrota até à Vitória Final
A recente eleição presidencial de António José Seguro foi celebrada, dentro e fora de Portugal, com entusiasmo quase eufórico por democratas de esquerda e de direita. A vitória na segunda volta (cerca de 66% dos votos contra aproximadamente 33% do candidato da extrema-direita) foi apresentada como uma derrota histórica do fascismo. Muitos proclamaram tratar-se de uma vitória retumbante da democracia; alguns chegaram mesmo a afirmar que o resultado demonstrava que o fascismo jamais regressaria a Portugal.
Confesso que não partilho desse entusiasmo, nem sequer do otimismo moderado
que muitos expressam. E não o faço por três razões fundamentais.
Em primeiro lugar, discordo da análise segundo a qual a extrema-direita foi
“retumbantemente derrotada”. Um terço do eleitorado num país com a história
política de Portugal não é um resíduo irrelevante: é uma base social
consolidada, mobilizada e normalizada. Não se trata de uma marginalidade
política, mas de um bloco significativo, com capacidade de crescimento e
influência. Ignorar este dado é um erro estratégico e uma forma de autoengano
coletivo.
Em segundo lugar, e talvez mais importante, o candidato vencedor
representa, em larga medida, a continuidade do statu quo neoliberal que
tem moldado as últimas décadas. O mesmo modelo económico e social que produziu
desigualdades crescentes, precariedade laboral, empobrecimento de vastas
camadas da população, degradação dos serviços públicos e um mercado de
habitação inacessível para a maioria. Foi este contexto de frustração,
insegurança e perda de expectativas que abriu espaço ao crescimento das
extremas-direitas em toda a Europa.
António José Seguro venceu não tanto pela força transformadora do seu
projeto político, mas por encarnar o “mal menor”. Venceu como barreira
defensiva contra um perigo maior. Foi um voto de contenção, não de esperança;
de bloqueio, não de mudança. E essa diferença é crucial. Porque governar sem
alterar estruturalmente as causas do descontentamento social é apenas adiar o
problema, não resolvê-lo.
A história recente mostra-nos que o neoliberalismo não derrota o fascismo;
limita-se, quando muito, a geri-lo temporariamente. Ao manter intactas as
estruturas económicas que concentram riqueza e poder, ao perpetuar a sensação
de abandono em regiões e grupos sociais específicos, cria as condições
materiais e emocionais que alimentam a narrativa da extrema-direita. Cada
crise, cada austeridade, cada falha do Estado social torna-se combustível para
quem promete soluções simples e inimigos claros.
Pergunto, portanto: até quando poderá o statu quo conter as forças que ele
próprio ajudou a gerar? Até quando será possível travar a extrema-direita
apenas com apelos à moderação e à responsabilidade institucional, sem enfrentar
as raízes profundas do mal-estar social?
Há ainda uma terceira questão, talvez a mais inquietante: o adormecimento
de muitos setores progressistas. Parte significativa da esquerda parece
contentar-se com vitórias defensivas, celebrando o bloqueio do pior como se
fosse conquista suficiente. Mas uma democracia que vive permanentemente em modo
de emergência, satisfeita por evitar a catástrofe imediata, acaba por baixar as
suas próprias expectativas históricas. A política deixa de ser espaço de
transformação e passa a ser mera gestão do medo.
O perigo não reside apenas no crescimento da extrema-direita, mas também na
erosão da ambição política das forças progressistas. Quando a esperança é
substituída pelo pragmatismo resignado, e a transformação estrutural dá lugar à
administração cautelosa do possível, o campo fica aberto para quem oferece
ruptura — mesmo que essa ruptura seja autoritária e regressiva.
Se queremos que o fascismo não regresse, não basta derrotá-lo nas urnas uma
vez. É preciso derrotar as condições que o alimentam: a desigualdade obscena, a
precariedade estrutural, a captura do Estado por interesses económicos, o
esvaziamento da participação democrática. Sem isso, cada vitória será apenas
provisória.
Celebrar a derrota da extrema-direita é legítimo. Mas confundi-la com a
vitória da justiça social ou com a consolidação definitiva da democracia pode
revelar-se um erro histórico. A democracia não se defende apenas impedindo o
pior; fortalece-se oferecendo o melhor.
E talvez a verdadeira questão seja esta: estaremos preparados para
construir uma alternativa real, ou continuaremos a caminhar de derrota em
derrota — celebrando cada adiamento como se fosse uma vitória?

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