A Era da Desinformação Institucionalizada
Não há fundo que ampare a desinformação. A comunicação
social, por definição, deveria ser um pilar da democracia, alicerçada na busca
da verdade, na verificação rigorosa dos factos e na distinção clara entre
informação e opinião. O seu dever é defender a imparcialidade e o pluralismo,
assegurando uma representação justa da diversidade social, política, cultural e
regional do país. Deve atuar com transparência, responsabilidade e respeito
pelos direitos humanos, promovendo o interesse público acima de qualquer
influência política ou económica. O compromisso inalienável da comunicação
social é com a ética, a integridade e o direito dos cidadãos a uma informação
livre, credível e acessível.
O que observamos hoje na comunicação social generalista,
porém, é o retrato fiel do incumprimento sistemático deste desígnio. O
desequilíbrio opinativo é gritante. Quando a lente se volta para a informação
internacional, a credibilidade esfuma-se; no plano da geopolítica, o escândalo
atinge o seu expoente máximo: o tratamento informativo degrada-se em narrativa
propagandística, alinhada acriticamente com um dos lados. A parcialidade é de
tal ordem que até o observador menos atento constata que não assiste a
jornalismo, mas a uma propaganda descarada pró-NATO e pró-Ocidente, mesmo
quando este bloco político-militar pratica as maiores atrocidades. A esmagadora
maioria das vozes opinativas que ecoam nos nossos écrans e rádios não faz mais
do que amplificar essas narrativas, funcionando como caixas de ressonância do
poder instituído.
Os media mainstream, ao abdicarem do seu dever, não
informam; difundem propaganda e tornam-se coniventes com crimes hediondos que
servem os interesses das elites que controlam o Ocidente. Veja-se a
cumplicidade no silêncio ou na relativização perante os crimes do regime
sionista de Israel contra o povo palestiniano; ou a forma acrítica como são
apresentadas as intervenções da NATO e dos EUA, décadas de morte e destruição
varridas para debaixo do tapete de uma suposta missão civilizacional e
propagadora da democracia.
Esta cumplicidade revela-se na assimetria do valor atribuído
à vida humana. A morte de dezenas de milhares de civis, incluindo milhares de
crianças em Gaza, é relativizada, transformada em estatística ou justificada
por um contexto fabricado. Já perante acontecimentos que envolvem o
"nós" geopolítico, como na guerra da Rússia contra a Ucrânia, a
comoção é total, dedicam-se teses inteiras a satanizar o adversário e a
legitimar uma resposta que, noutros contextos, condenariam. Esta postura seletiva
é uma afronta à dignidade humana e uma negação dos princípios fundamentais do
jornalismo ético.
Contudo, aqueles que julgavam ter atingido o fundo do poço
da desinformação e da manipulação arriscam-se a um choque maior: não há fundo
para estes media e para as criminosas elites que servem. O exemplo mais recente
e gritante é a cobertura (des)informativa da criminosa agressão dos EUA e de
Israel contra o Irão. A reboque de elites políticas envergonhadas, os media
desvalorizam o crime, relativizam a agressão e, num exercício de
prestidigitação moral, transformam as vítimas em agressores. Classificam os
ataques de Israel e dos EUA como "ações defensivas", enquanto a
retaliação legítima do Irão é rotulada de "agressão injustificada".
Não há adjetivação que consiga classificar tamanha perversão da linguagem e dos
factos.
Desde o início deste conflito, os media mainstream e os seus
comentadores cúmplices têm reproduzido, de forma acrítica e servil, a narrativa
do lado dos agressores. Nunca se apresenta uma contextualização histórica
profunda sobre as causas reais da tensão, nem se relata de forma equilibrada a
realidade no terreno. O que nos chega é propaganda pura, um maniqueísmo
empobrecedor que tudo reduz a "nós" (os bons) e "eles" (os
maus). O jornalismo não pode ser confundido com propaganda. Não pode ser
cúmplice da desumanização do outro nem tratar a barbárie como uma mera questão
de opinião. A defesa de certos valores não pode servir de pretexto para
normalizar o inaceitável.
Perante esta violação flagrante do direito internacional,
esperar-se-ia que os media denunciassem, sem tibiezas, o ataque à ordem
mundial. Em vez disso, limitam-se a reproduzir as narrativas hipócritas das
elites dirigentes europeias, que invocam o direito internacional quando lhes
convém e o silenciam quando este acusa os seus aliados. Nestas circunstâncias,
não é apenas a informação livre que jaz morta; também o direito internacional
definha, vítima da mesma seletividade.
Não gostaria de ter escrito este texto. Ele é o reflexo de
uma indignação que deveria ser desnecessária. Mas, no atual estado das coisas,
mais do que nunca, precisávamos de media livres que servissem a verdade e os
genuínos valores democráticos e humanistas. O que temos é o oposto: media
transformados em simples caixas de ressonância dos poderes instalados,
desprovidos de qualquer credibilidade, tóxicos e perigosos, que, com a sua
postura vassala e a sua desinformação sistemática, nos empurram coletivamente
para o caos e para o abismo. A sua falta de seriedade e de qualidade não é
apenas um problema de ética jornalística; é um risco iminente para a própria
democracia.

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