A Desilusão de um ingénuo
Sempre acreditei, com uma ingenuidade quase infantil, que o Holocausto nazi não teria acontecido se as pessoas decentes, os líderes decentes, tivessem sabido o que se passava. Pensava que a humanidade, confrontada com tal horror, ergueria um grito de revolta capaz de abalar o mundo. Hoje, vejo um genocídio em direto, transmitido para todo o planeta, e a resposta é um silêncio ensurdecedor. Governos ditos civilizados mantêm-se calados ou cúmplices. Os média minimizam, relativizam, desviam o olhar. Os intelectuais refugiam-se em silêncios cómodos ou em equidistâncias cobardes. Os artistas, outrora voz de resistência e consciência, emudeceram. Ativistas que marcharam por todas as causas parecem agora estranhamente ausentes. E as pessoas comuns? Continuam com as suas rotinas, como se nada de extraordinário estivesse a acontecer. Que ingénuo fui. A humanidade não aprendeu nada. Não há indignação que resista ao pragmatismo político, não há compaixão que sobreviva ao medo de perder privilégio...