Twin Peaks, uma obra-prima


A primeira vez que vi Twin Peaks, nos anos 90, terminei a série profundamente frustrado. Procurava decifrar cada símbolo, compreender cada acontecimento, encontrar uma lógica que simplesmente não existia. Em vez de me deixar levar, tentava resolver um enigma que não tinha solução.

A segunda vez foi décadas depois, quando estreou a terceira temporada. Revi as duas primeiras com outro espírito: mais aberto, mais atento. Passei a reparar nos pequenos prazeres, como o modo quase ritualístico com que o agente Dale Cooper bebe o seu café. E aquilo tornou-se uma verdadeira explosão sensorial.

Agora, na terceira revisita, entrego-me completamente. Permito-me ser guiado pelos detalhes, pelas atmosferas, pelos silêncios. Aceito que não há resolução possível e percebo, enfim, que é precisamente esse mistério onírico que constitui a essência de Twin Peaks. Não é uma série como as outras: é uma obra de arte que mexe com os sentidos.

Twin Peaks não é para ser decifrada, mas sentida. O universo de David Lynch nasce do inconsciente e funciona como um sonho, estranho, intuitivo, carregado de mistérios. Para entrar nessa obra, é preciso abandonar a lógica e entregar-se ao onírico, aos símbolos, às emoções puras. Rever Twin Peaks é reencontrar novas camadas que só se revelam a quem aceita que o cinema de Lynch não explica, mas ilumina.

É uma experiência para ser vivida, não resolvida.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O linchamento de Mariana Mortágua é o espelho da intolerância

A Etnocracia Sionista: Genocídio em Gaza, Crimes na Cisjordânia e a Cumplicidade Hipócrita Global

O Eclipse da Humanidade: O Genocídio em Gaza e o Presságio da Nossa Própria Queda