Não Há Debate Possível

Pacheco Pereira, um dos raros intelectuais portugueses que, mesmo quando discordamos de muitas das suas posições, merece o nosso mais profundo respeito pela rigorosa capacidade de análise, pela honestidade intelectual e pelo domínio sereno da história política portuguesa, decidiu desafiar o líder da extrema-direita para um debate televisivo. O pretexto foi uma afirmação histórica claramente falsa e provocatória: a de que “pouco tempo depois do 25 de Abril havia mais presos políticos do que antes de 1974”.

O desafio surpreendeu muitos. E o resultado, infelizmente, confirmou o pior cenário possível: o debate transformou-se num desastre retórico, histórico e ético. Não por falta de preparação, de argumentos ou de dossiers por parte de Pacheco Pereira — que, como sempre, dominou o terreno com precisão cirúrgica. O problema é mais profundo e estrutural: não é possível debater com a extrema-direita.

Porque a extrema-direita não debate. Ela não aceita o debate como instrumento de procura da verdade. Usa-o, sim, como palco de propaganda, como arma de destruição da conversa racional e como trampolim para ganhar visibilidade e legitimidade. Recorre sistematicamente a todos os subterfúgios disponíveis: whataboutismo constante, meias-verdades distorcidas, mentiras descaradas, manipulação descarada dos factos, interrupções ruidosas nos momentos mais incómodos, gritos, ironias baratas e a transformação deliberada do confronto em espetáculo de circo.

O que deveria ser um exercício de esclarecimento histórico transformou-se, mais uma vez, num exercício de normalização da boçalidade. Cada interrupção, cada desvio, cada falso paralelo serviu para dar oxigénio a narrativas tóxicas que, em condições normais, nem mereceriam ser ouvidas. E o pior: ao aceitar o debate em termos de igualdade formal, Pacheco Pereira — involuntariamente — concedeu à extrema-direita o que ela mais deseja: espaço mediático, visibilidade e a aparência de respeitabilidade democrática.

Na minha opinião, estes debates não servem a verdade histórica, não servem o progressismo e não servem a decência intelectual. Pelo contrário: fortalecem a extrema-direita, normalizam as suas mentiras, amplificam as suas manipulações e aproximam-na, passo a passo, do poder que ambiciona. Cada minuto de antena concedido é um minuto ganho na sua estratégia de erosão das instituições, da memória coletiva e dos valores democráticos.

A extrema-direita deve ser combatida sem tréguas e sem mácula. Deve ser desmascarada de forma clara, frontal e implacável. Mas nunca lhe deve ser dada a plataforma que transforma o confronto num espetáculo onde ela brilha pela provocação e pela destruição da conversa civilizada. Não se discute com quem rejeita os pressupostos mínimos do debate: a boa-fé, o respeito pelos factos e a aceitação de que a verdade não é uma questão de opinião.

Os progressistas, os democratas e todos aqueles que ainda defendem a memória do 25 de Abril têm pela frente uma tarefa árdua, ingrata e urgente: recusar a normalização. Recusar o falso debate. Recusar o jogo que transforma o agressor em vítima e o mentiroso em interlocutor válido. Porque, quando se senta à mesa com quem só quer derrubar a mesa, o único resultado possível é a destruição da própria mesa.

Este não foi um debate. Foi uma lição dolorosa sobre os limites da democracia perante quem a quer destruir por dentro. E a lição é clara: a extrema-direita não se derrota com boa educação televisiva. Derrota-se com firmeza ética, com rigor histórico e com a recusa absoluta de lhe oferecer o palco que tanta cobiça.

 

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