O Ocaso da Civilização: O Império Decadente, o Seu Protegido Sanguinário e o Abismo Ético do Nosso Tempo
Não vivemos um mero ciclo de crise: assistimos à
metástase moral galopante da modernidade. Se a década de 1930 foi o prelúdio
sombrio do horror, a nossa era é o seu espelho deformado e grotesco — um tempo
em que a barbárie já não se esconde nas sombras, mas se exibe em alta
definição, se consome em tempo real e se integra no quotidiano com a mais
cínica naturalidade. O que outrora foi o “silêncio cúmplice” das democracias
liberais transformou-se na forma mais perversa e repugnante de participação: a
normalização ativa, entusiástica e militante da violência mais desumana.
O obscurantismo contemporâneo não nasce da ignorância,
mas de uma indiferença fria, calculada e deliberadamente cultivada. Décadas de
neoliberalismo selvagem não se limitaram a reorganizar economias: reprogramaram
consciências, fragmentaram o tecido social até ao osso, dissolveram o sentido
de comunidade e reduziram o cidadão a uma mera unidade de cálculo egoísta,
incapaz de reconhecer no outro um igual, um ser humano. A empatia tornou-se
residual e patética; a solidariedade, suspeita perigosa; o bem comum, uma
abstração descartável e ridicularizada.
Neste cenário dantesco, o centro do poder mundial deixou
de se apresentar como farol da civilização para se revelar, sem máscara, como o
vazio ético mais abjeto e repulsivo. Os Estados Unidos, confrontados com o
declínio irreversível da sua hegemonia, abandonam progressivamente a diplomacia
e erguem a coerção bruta como doutrina oficial. A ordem internacional que
proclamam defender com hipocrisia patética é, na prática, aplicada de forma
selvaticamente seletiva: rigorosa e implacável para os adversários, inexistente
para si próprios e para os seus protegidos criminosos.
É neste quadro de cumplicidade institucionalizada que se
inscreve a relação incestuosa e incondicional com Israel — o aliado estratégico
que beneficia de uma proteção política, militar, diplomática e mediática cega,
total e vergonhosa. A ocupação militar, colonial e genocida de Israel sobre os
territórios palestinianos, marcada por uma destruição sistemática, deliberada e
sádica de infraestruturas civis, hospitais, escolas, universidades, mesquitas,
pelo massacre de milhares de civis inocentes, incluindo milhares de crianças,
jornalistas e socorristas, tem sido alvo de condenação veemente e repetida por
múltiplas organizações internacionais. Ainda assim, persistem as justificações
cínicas, os silêncios cúmplices e as ambiguidades repugnantes por parte das
potências ocidentais, que, por ação direta ou omissão criminosa, se tornam coautoras
morais e materiais desta carnificina.
A retórica da “autodefesa” é repetida como mantra obsceno
mesmo perante evidências esmagadoras de desproporcionalidade monstruosa e de
crimes contra a humanidade. O que deveria suscitar uma condenação inequívoca,
imediata e universal transforma-se num debate semântico nojento, onde a
linguagem é prostituída para diluir responsabilidades, anestesiar consciências
e branquear o indefensável.
A recente escalada bárbara envolvendo o Irão — com os
assassinatos seletivos de líderes, o massacre de civis inocentes, incluindo
crianças, os ataques criminosos a hospitais, universidades, bairros
residenciais, monumentos históricos e mesquitas — ilustra até que ponto a
lógica da força selvagem e da impunidade absoluta substituiu qualquer pretensão
de ordem baseada no direito internacional. O desrespeito arrogante pela
soberania alheia, os ataques que ceifam vidas civis e colocam em risco as
normas mais elementares da convivência entre povos, revelam um sistema podre
onde a impunidade dos mais fortes se tornou a única regra vigente.
As ameaças explícitas do líder do Império de reduzir o
Irão a escombros e atirá-lo de volta à Idade da Pedra deveriam ter feito
levantar os povos do mundo inteiro numa revolta moral unânime. Deveriam ter
aberto todos os telejornais com manchetes de fogo denunciando esta barbárie
inominável. Deveriam ter levado todos os governos dignos a protestar com a
máxima energia e indignação. Em vez disso, assistimos a um amorfismo moral
repugnante, a uma conivência cobarde e a um silêncio que dá vómitos de nojo —
prova cabal da falência ética total das chamadas “democracias” ocidentais.
As instituições internacionais, que deveriam ser o último
travão civilizacional a estas dinâmicas assassinas, revelam-se impotentes,
corruptas e transformadas em mera encenação diplomática. A ONU e os tribunais
internacionais emitem resoluções e declarações que raramente se traduzem em ação
efetiva, porque o sistema global de governação foi capturado pelos mesmos
criminosos que o deveriam controlar.
A responsabilidade, porém, é coletiva e esmagadora. As
elites políticas, económicas e mediáticas do chamado Ocidente participam ativamente,
por ação direta ou por omissão cobarde e criminosa, nesta normalização da
barbárie. Os meios de comunicação, longe de exercerem escrutínio, funcionam
como máquinas de propaganda servil, atenuando responsabilidades, reproduzindo
narrativas dominantes e transformando tragédia em espetáculo consumível.
No plano social, a fragmentação deliberada e a saturação
informativa produzem apatia generalizada. A indignação torna-se episódica,
efémera e rapidamente substituída pelo próximo ciclo de distração. A tragédia
converte-se em conteúdo; o sofrimento, em mera estatística para alimentar
algoritmos.
O resultado é um colapso ético sistémico e terminal. Não
porque os valores tenham desaparecido, mas porque foram completamente
esvaziados de qualquer força orientadora: invocados quando convenientes,
ignorados quando incómodos, prostituídos ao serviço do poder.
A ideia de progresso, outrora o grande mito da
modernidade, perdeu toda a credibilidade num mundo onde coexistem avanços
tecnológicos sem precedentes com retrocessos humanitários e ambientais de uma
profundidade abissal. A promessa de um futuro melhor foi substituída pela
gestão cínica de crises permanentes e autoinfligidas.
O que deixamos às gerações futuras não é herança, mas um
fardo monstruoso: um planeta mais instável, mais desigual, mais tóxico e mais
vulnerável. Um mundo onde a violência — física, estrutural, económica e
ambiental — se tornou a nova normalidade imposta pelos poderosos e aceite pelos
cúmplices silenciosos.
Se ainda existe um gesto possível de dignidade humana,
ele não reside na ilusão de soluções rápidas ou redenções fáceis. Reside na
recusa feroz e intransigente de aceitar esta realidade como inevitável. Nomear
a barbárie pelo seu nome verdadeiro, recusar a sua normalização repugnante e
manter viva a exigência implacável de responsabilidade criminal — contra o
Império, contra o seu protegido genocida e contra todos os seus cúmplices por ação
ou por inação — talvez sejam, neste abismo ético, as últimas formas de
resistência moral que ainda nos restam.

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