Discurso para boi dormir
O recente discurso
de Luís Montenegro na ONU foi um exercício confrangedor de retórica vazia,
miopia geoestratégica e, acima de tudo, profunda hipocrisia política e moral.
Mais um discurso para boi dormir, recheado de lugares-comuns e proclamações
solenes sobre democracia, direitos humanos, paz e direito internacional,
proferidas por quem parece esquecer que esses valores não são artigos de
conveniência, aplicáveis apenas quando favorecem os interesses dos seus
aliados.
No Médio
Oriente, Montenegro revelou uma chocante falta de coerência ao condenar
seletivamente, omitir responsabilidades e branquear, pelo silêncio e pela
ambiguidade, os crimes de Israel e dos Estados Unidos. Ao apontar o dedo ao
Irão sem contextualizar devidamente a ocupação israelita, a expansão criminosa
dos colonatos, a devastação de Gaza, o genocídio dos palestinianos e o apoio
político e militar norte-americano a Israel, contribuiu para perpetuar uma
narrativa enviesada, construída à medida dos interesses anglo-sionistas, que
capturaram as mentes das elites ocidentais.
A sua
referência à criação de um Estado palestiniano é a expressão acabada desta
hipocrisia: proclama-se uma solução política enquanto se evita denunciar, com a
firmeza necessária, a realidade que a inviabiliza — a ocupação, a usurpação de
terras, a colonização, a destruição sistemática das condições de vida e o
genocídio do povo palestiniano. Perante a dimensão da catástrofe humanitária e
dos crimes que o sionismo e os seus aliados praticam sistematicamente, a
diplomacia dos eufemismos e das omissões não é neutralidade: é uma demissão
moral intolerável.
A
incoerência de Montenegro é gritante: exige aos outros o respeito por valores
que não tem a coragem de defender com igual firmeza quando são os seus aliados
a violá-los. Que autoridade moral possui quem invoca o direito internacional,
mas se refugia em ambiguidades quando estão em causa as violações cometidas por
Estados poderosos e aliados? Que credibilidade merece quem transforma os
direitos humanos num instrumento de conveniência geopolítica, aplicando dois
pesos e duas medidas consoante a identidade dos acusados?
Esta duplicidade
não é prudência diplomática: é cobardia política disfarçada de realismo. Não é
defesa de valores universais: é a sua instrumentalização descarada. E não é
liderança moral: é servilismo perante os interesses dominantes, à custa da
verdade, da justiça e da dignidade humana.
Portugal
merece uma política externa independente, coerente e fiel ao direito
internacional, não um discurso submisso aos alinhamentos estratégicos do
sionismo e do império norte-americano. Quem só condena os crimes dos
adversários e silencia os dos aliados não defende princípios: protege
interesses. Quem proclama valores universais, mas aceita a sua aplicação
seletiva, não é um defensor da justiça: é parte do problema.
O discurso
de Montenegro foi, por isso, politicamente medíocre, estrategicamente míope e
moralmente confrangedor. Uma demonstração de que, para certas elites, os
valores servem para ornamentar discursos, não para orientar ações.
A hipocrisia
também tem consequências. E, perante a tragédia palestiniana, o silêncio cúmplice,
a condenação seletiva e a submissão aos poderosos constituem uma vergonha
política e moral que nenhuma tribuna das Nações Unidas consegue disfarçar.

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