Quando os media se transformam em sarjeta social
O Ronaldo chateou-se num treino da seleção nacional,
amuou, chamou o seu jato privado e foi-se embora. Por asco, não vou comentar
este caso. Vou apenas lembrar que essa viagem do astro dos alienados da bola,
feita num acesso de amuo e privilégio, poluiu, numa única deslocação, mais do
que aquilo que a esmagadora maioria dos portugueses polui durante meses.
Mas há algo neste episódio que merece, isso sim, ser
denunciado: a forma absolutamente desproporcionada, obscena e alienante como os
media mainstream — com particular destaque para as televisões — se atiraram ao
assunto.
Os media do sistema dedicaram, e continuam a dedicar,
horas e horas de emissão a comentários, especulações, casos e casinhos
relacionados com o amuo de Ronaldo e com a sua saída da seleção nacional de
futebol. A coisa atingiu proporções verdadeiramente grotescas. Os telejornais —
há muito transformados em autêntico lixo tóxico para a sanidade social —
aproveitaram mais uma vez o seu estatuto de sarjeta mediática para transformar
aquilo que deveria ser um serviço noticioso, destinado a informar a comunidade
sobre os assuntos mais relevantes, prementes e decisivos, num interminável
espetáculo de alienação coletiva.
Em vez de informação séria, plural, rigorosa e
proporcional, temos horas de histeria mediática, especulação, opinião
travestida de notícia e uma exploração obsessiva de um episódio absolutamente
secundário face aos problemas que esmagam a vida quotidiana de milhões de
pessoas.
E o mais escandaloso é que a televisão pública, que
deveria constituir um contraponto a esta deriva miserável e cumprir uma obrigação
acrescida de serviço público, em vez de dar o exemplo, embarca precisamente na
mesma lógica. Em vez de contrariar a degradação do espaço mediático,
acompanha-a. Em vez de elevar o debate público, mergulha com as restantes
televisões na mesma lama.
Tudo isto acontece num contexto particularmente grave:
uma Europa mergulhada numa perigosa escalada militar, com a ameaça de uma
guerra de grandes proporções cada vez mais presente; uma economia marcada por
profundas dificuldades e desigualdades; uma crise da habitação que impede cada
vez mais pessoas de aceder a esse direito básico; salários que não acompanham o
custo de vida; serviços públicos sob pressão; e uma enorme parte da população a
viver com crescentes dificuldades para garantir condições mínimas de
existência.
É neste contexto que os telejornais decidem dedicar horas
e horas ao amuo de uma estrela do futebol.
Não é apenas uma questão de futebol. É uma questão de
prioridades. É uma questão de responsabilidade social. É uma questão de serviço
público. É, sobretudo, uma questão de democracia.
Quando os meios de comunicação social abandonam a
obrigação de hierarquizar os acontecimentos segundo a sua relevância para a
sociedade e passam a privilegiar sistematicamente o espetáculo, a celebridade,
o escândalo e o fait-divers, deixam de cumprir plenamente a sua função
informativa e passam a contribuir para a alienação coletiva.
E quando essa alienação se torna sistemática, industrial
e diária, a comunicação social corre o risco de se transformar precisamente naquilo
que não deveria ser: uma gigantesca máquina de distração, ruído e
embrutecimento social.
Uma sarjeta mediática onde o espetáculo de um amuo
futebolístico consegue ocupar mais espaço do que os problemas concretos que
determinam o futuro e a vida de milhões de pessoas.
E isso, sim, é verdadeiramente escandaloso.

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