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O pacote laboral do governo Montenegro: um retrocesso civilizacional

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O governo de Luís Montenegro prepara um pacote laboral que representa um ataque brutal aos direitos dos trabalhadores e um claro retrocesso civilizacional. Sob o disfarce de “modernização”, o executivo promove uma agenda profundamente neoliberal e reacionária, que ameaça destruir o que resta do contrato social construído no pós-guerra. O aumento do horário de trabalho até 50 horas semanais, a fragilização do direito à greve, a redução da importância da antiguidade e a facilitação dos despedimentos não são medidas técnicas, são opções ideológicas. Elas procuram submeter a vida ao império do mercado e transformar o trabalhador num recurso descartável, disponível 24 horas por dia ao serviço do lucro. Como denunciam Raquel Varela e António Garcia Pereira, trata-se de um projeto político que visa desmantelar o Estado social e enfraquecer qualquer forma de resistência coletiva. O governo de Montenegro, alinhado com as teses mais duras da direita europeia, mostra-se determinado em convert...

A Era do Neoliberalismo Totalitário e a Ascensão das Direitas Neofascistas

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Imagem da minha autoria com elementos acrescentados por IA “O neoliberalismo não é apenas um conjunto de políticas económicas; é uma reconfiguração total da humanidade e da sociedade sob o império do mercado.” — Christian Laval e Pierre Dardot , A Nova Razão do Mundo O neoliberalismo não pertence ao passado. É o sistema hegemónico do presente — um regime totalitário de mercado , como sublinha Marilena Chauí, que se impõe sobre as sociedades contemporâneas através de uma combinação de violência económica, simbólica e cultural. Sob o disfarce da liberdade individual e da eficiência económica, consolidou-se uma forma de dominação que substitui a democracia pelo consumo, a cidadania pela competição e a solidariedade pela culpa. Desde os anos 1980, com Thatcher e Reagan, o neoliberalismo tornou-se o dogma estrutural do Ocidente. Mas o seu poder não reside apenas nas instituições: reside sobretudo na captura das consciências. George Monbiot descreve-o como a “ideologia invisível” do nosso ...

Democracia em Queda Livre

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 Donald Trump, que ainda ocupa o cargo mais poderoso do planeta, publicou um vídeo gerado por inteligência artificial onde aparece a pilotar um avião que lança fezes sobre uma multidão de manifestantes que protestam contra ele. É uma imagem repulsiva — e, no entanto, tristemente coerente com o tempo em que vivemos. A política transformou-se em espetáculo de humilhação, e o poder um palco de provocação. O episódio seria apenas grotesco se não fosse profundamente revelador. Mostra até que ponto a fronteira entre o real e o artificial se dissolveu, e como a violência simbólica substituiu o debate. Quando um líder mundial recorre a ferramentas de inteligência artificial para insultar os seus opositores, não estamos perante humor — estamos perante a normalização do desprezo, a banalização da ofensa e a estetização da mentira. Mas Trump não é uma exceção: é um sintoma. O mesmo vírus alastra por todo o Ocidente. Em países onde a democracia parecia consolidada, a extrema-direita ganha ...

Carta Aberta à Provedora do Telespectador da RTP, Ana Sousa Dias

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Exma. Senhora Provedora do Telespectador, Ana Sousa Dias, Dirijo-me a V. Ex.ª na qualidade de cidadão e contribuinte, profundamente preocupado com a forma como o serviço público de informação da RTP tem vindo a degradar-se e a afastar-se da sua missão essencial: garantir uma informação rigorosa, independente e plural, ao serviço da sociedade e da democracia. O serviço público de comunicação social deve basear-se na busca da verdade, na verificação dos factos e na distinção clara entre informação e opinião. Deve defender a imparcialidade e o pluralismo, assegurando uma representação justa da diversidade social, política, cultural e regional do país. Deve atuar com transparência, responsabilidade e respeito pelos direitos humanos, promovendo o interesse público acima de qualquer influência política ou económica. O compromisso da RTP deve ser com a ética, a integridade e o direito dos cidadãos a uma informação livre, credível e acessível a todos. Infelizmente, Senhora Provedora, na...

A Era Do Desencanto

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Onde param aqueles que, perante o desabar civilizacional que testemunhamos, permanecem quase em silêncio, como se o espanto tivesse sido substituído pela resignação? Onde estiveram, nos últimos dois anos, durante o genocídio do povo palestiniano, quando a barbárie se mostrou em direto diante do mundo, e a maioria manteve um silêncio sepulcral? Terão viajado para Marte? Ou terão simplesmente desistido? Onde estão os músicos que, há poucas décadas, usavam a sua arte como forma de denúncia, de solidariedade e de esperança? Onde estão os intelectuais que outrora empunharam a palavra como arma contra a injustiça, que enfrentaram regimes, denunciaram tiranias e defenderam causas progressistas? Onde estão agora, quando a ignomínia volta a erguer-se sob novas máscaras, e o retrocesso moral e político se impõe como norma? Onde estão os movimentos populares e sociais que um dia se levantaram por causas justas — como a autodeterminação do povo timorense, por exemplo —, mas que hoje parecem di...

A Paz em Gaza: Entre o Desejo e a Desconfiança

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A paz para o povo palestiniano seria, sem dúvida, uma das mais nobres e urgentes conquistas do nosso tempo. Depois de tantas décadas de sofrimento, destruição e injustiça, qualquer proposta que traga esperança de um cessar da violência merece ser ouvida e analisada com cuidado. No entanto, não basta proclamar a paz, é preciso compreender quem a propõe, em que condições e com que intenções. É precisamente aí que reside a minha dúvida. Gostaria sinceramente de acreditar que o plano anunciado por Trump e pelos seus aliados poderá abrir caminho a uma paz verdadeira e duradoura. Mas a experiência histórica e a natureza do poder que domina Israel obrigam a olhar este processo com prudência e ceticismo. O que assistimos ao longo de décadas não é apenas a política de um governo passageiro, é a execução de um projeto ideológico profundo, intrinsecamente ligado ao sionismo, que tem sustentado a colonização, a expulsão e o genocídio do povo palestiniano desde a fundação do Estado de Israel. Esse ...

Israel e o Mito do “Direito à Defesa”

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Desde o 7 de outubro de 2023 que a propaganda sionista, amplificada pelos grandes meios de comunicação e pelas elites políticas ocidentais, repete incessantemente uma frase que se tornou mantra: “Israel tem direito à sua defesa.” Mas essa frase, apresentada como verdade absoluta, esconde uma realidade histórica, política e moral muito diferente da que é propagada. Israel não é uma vítima sitiada. É uma potência ocupante. E a sua alegada “autodefesa” tem servido de cortina de fumo para crimes sistemáticos contra um povo ocupado há mais de sete décadas. A História que o Discurso Oficial Apaga A falácia da “autodefesa” parte da ideia de que tudo começou com o ataque do Hamas, a 7 de outubro de 2023. Mas o conflito entre Israel e a Palestina tem raízes profundas e antigas, que remontam à fundação do Estado de Israel, em 1948, o ano da Nakba , a “catástrofe”, quando mais de 700 mil palestinianos foram expulsos das suas terras e aldeias. Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou a ...